Saúde e Sociedade

Mastiga, meu filho

27/08/2021
Mastiga, meu filho | Jornal da Orla

Não é muito fácil encontrar uma criança que chore por alface ou pé de couve. “Mãe, eu quero agrião… snif”. Nem mesmo na minha época de desenho animado, e lá se vão mais de 50 anos, o Popeye nos convencia a comer espinafre, mesmo após a demonstração de tanta força para salvar sua amada Olívia Palito.

 

Somos mamíferos. Nascemos sem dentes. Aprendemos a mastigar durante nosso primeiro ano de vida. Nesse período, o bebê sai de uma dieta completamente líquida – o leite – para uma sólida. Isso não acontece de um dia para o outro. É durante o período do aleitamento materno que a sucção vai estimulando o desenvolvimento de vários músculos e dos ossos da região oral, que vão nos ajudar a criar uma harmonia facial e um bom desempenho da fala e da mastigação.

 

Da alimentação líquida, evoluímos para a alimentação pastosa e, só depois de um ano e meio mastigaremos dentro de um padrão próximo ao dos adultos. Esse primeiro ano de vida exige muito dos pais. E muitos não têm paciência, é bem verdade. Fingem que têm, mas não têm. Na primeira recusa pela criança estabelecem um padrão alimentar. 

 

“Carlinhos não gosta de comer verdura de jeito nenhum. Já forcei, mas não tem jeito”. Essa fala é muito comum. Na verdade, nestes casos falta orientação aos pais. Como talvez não tenham tido acompanhamento de sua alimentação durante a infância como deveria, repetem o mesmo padrão alimentar que lhes foi imposto. Daí ser comum famílias inteiras não “gostarem” de comer frutas, legumes e verduras. 

 

De outro modo, alimentos industrializados já vêm pré-preparados, mais fáceis de mastigar, deglutir e digerir. Para que esforço, não é mesmo? Mas, não é bem assim. Se por um lado a diminuição do exercício de mastigação pode causar problemas de oclusão dentária e suas consequências; como o distúrbio do sono, a ausência de fibras na alimentação predispõe às doenças gastrintestinais como as colites e tumores e a ingestão excessiva de carboidratos pode saturar a produção de insulina pelo pâncreas. 

 

“Mastiga bem, meu filho. A digestão começa na boca”. Estou vendo meu pai à mesa falando isso, o que ele fazia quase todo dia. E tinha razão. Mais tempo de mastigação permite que os alimentos tenham mais contato com a enzima amilase salivar, responsável pelo início da digestão do amido, presente no milho, arroz, batata, mandioca e trigo, por exemplo.

 

A cozinha pode ser uma verdadeira academia de ginástica para nosso sistema digestório, basta sabermos fazer as melhores escolhas, para nós e os picorruchos.