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Na praia

17/04/2024
Na praia | Jornal da Orla

Sobre a perda da inocência 

Alguns livros nos lembram da maior virtude da literatura, que também representa a sua faceta mais singela: contar uma boa estória. Na praia, pequeno romance do experimentado inglês Ian McEwan, apresenta ao leitor os recém-casados Edward e Florence que, instalados às margens do Canal da Mancha, desajeitadamente jantam na antessala de sua noite de núpcias.

O leitor notará imediatamente uma palpável atmosfera desconfortável pairando entre os jovens, fruto do cenário sociocultural da época – a Inglaterra de 1962. O pudor e a inocência herdados da geração anterior chocam-se com o devir de um novo mundo e tudo isso vem à tona no grande momento nupcial de Edward e Florence. O casal e o preciso pano de fundo que os cobre foram construídos com extrema habilidade pelo escritor, assim como o desencanto, a perda da inocência e o mal-entendido que atravessam toda a estória.

O livro, que inicia a narrativa na noite de núpcias para depois descer em rica digressão sobre a vida familiar de cada nubente, ao final retorna às margens do Canal da Mancha para o contundente desfecho. Um livro excelente.

 

Motivos para ler:

1- Ian McEwan, britânico de 1948, é um consagrado e laureado escritor. Vencedor do prestigiadíssimo Booker Prize, seus livros mais conhecidos no Brasil são Na praia e Reparação – este último, aliás, conta com uma adaptação cinematográfica (Desejo e Reparação) simplesmente imperdível;

2- De novo: eis aqui um livro excelente. Breve, certeiro, envolvente, plúrimo em significados e de leitura fácil e rápida. Uma aula magistral de como imergir densos personagens em situações de grave profundidade e, ainda assim, parecer simples;

3- Há dois atos que sempre perturbam a mente do escritor: o início e o final do livro. É que mesmo uma excelente trama pode ser mal criticada se não for bem introduzida ou adequadamente finalizada. McEwan, entretanto, tira esse drama de letra. A introdução pungente capta o leitor e o conduz ao cerne do livro para depois ancorar num final perfeito. E não dizemos isso sobre qualquer livro.

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