Artigos

Velho tema

30/08/2025 Luiz Dias Guimarães
Envato

Sempre, às sete horas, ele vinha correndo recolher o lixo, com sua alegria e cabelos pintados de ouro. A aparente felicidade daquele trabalhador me humilhava logo cedo, quando eu, na janela, cansado, traçava os planos do dia, inspirado pelo aroma do café. E concluía, na minha tosca filosofia, que a felicidade pode estar até num caminhão de lixo.

Aquele jovem, que certamente tinha uma família para sustentar, não coletava apenas por obrigação de garantir um punhado de feijão na mesa.

Demonstrava ser muito feliz com o que fazia. Aliás, não me recordo de algum dia ter visto um lixeiro amaldiçoar o que tanto descartavam, ou o azar do saco rompido, espalhando restos de farta ceia no chão. Admiro sempre o bom humor dessa turma, diferentemente dos catadores sorumbáticos que vasculham contentores ou disputam com os urubús os restos no aterro. Há uma diferença de classe até no universo do lixo.

Coletores são figuras simpáticas, como poucas outras atividades que passam aos nossos olhos e enfeitiçam especialmente as crianças que se espelham nelas para definir o que desejam ser um dia. Nascemos um corpo que apenas pulsa e chora. E a partir daí começamos a efetivamente nos construir. Ser, no que nos transformamos mais tarde, é muito mais que simplesmente existir.

Vamos nos construindo inspirados em papéis que vivenciamos à frente. E normalmente desejamos ser, quando crescer, profissionais que admiramos. Nos meus primeiros anos de vida, quando meu pai lançava a típica pergunta, eu sempre respondia: quero ser padre, palhaço, mecânico e Papai Noel. Não me tornei nada disso.

Brincamos de mocinho e bandido, de mamãe e papai, de médico. E observamos com admiração os personagens do bairro, o que às vezes é perigoso.

Não há nas ruas apenas figuras louváveis, de suor e predicado. Pode haver quem, suspeito, logo cedo ostente corrente de ouro, tênis importado e sonho de em breve comprar uma Ferrari.

Nos espelhamos nos que preenchem os nossos fantasiosos dias. Há quem descarte um personagem da Disney para sonhar com a presença, no aniversário, de um policial, ou um bombeiro. E há quem sopre suas poucas velinhas vestindo-se de coletor de lixo. Talvez seja o caso daquele loiro das minhas manhãs, quando ele era criança. Importante é o quanto ele me parecia feliz. Não sei se escolheu ser coletor na vida. Muitas vezes o destino independe do esforço e da vontade.

O certo, no entanto, é que aquele homem encontrou o caminho da felicidade. Coisa que pouco se vê e significa um dos maiores mistérios do existir, quando se cai na intensa busca, muitas vezes em vão. Como disse um dia o poeta Vicente de Carvalho, a felicidade existe sim, mas nós não a alcançamos, porque está sempre apenas onde a pomos, e nunca a pomos onde nós estamos.

O jovem do lixo certamente sabia onde por seu pote de felicidade. No lixo, contrariando esse velho tema.