
Na época mais remoto de minha vida, o tempo parecia não passar. Mas ele passava, sim, de modo sorrateiro. Um dos truques do tempo era fingir ser lento, ou até mesmo imóvel, e assim ele me enganava. Naquele momento da vida eu era imortal e livre, e vivia preenchido pelas mais atrevidas e ousadas esperanças. Não me vinham à mente hipóteses de fracassos, derrotas, insucessos e infortúnios, definitivos ou irreversíveis.
Quando minha avó materna viajou para cuidar do menino Jesus, minha mãe deu-me a notícia, e eu, com quase 3 anos de idade, não guardei nenhuma mágoa nem ressentimento, afinal, o pequenino Jesus deveria estar ao desamparo e a precisar do zelo de minha avó, de seu colo macio e amplo, de sua voz meiga, doce e entoada para o acalanto, enquanto eu, mais afortunado, vivia no aconchego dos mimos e da ternura de minha mãe, de meu pai, e de meu avô. Embora eles tenham escolhido permanecer comigo, mesmo assim ficaram tristes e eu os vi chorando, quando minha avó partiu.
Em mim, restou uma saudade sem ciúme, pois eu gostava daquele menino de nome Jesus, de quem diziam ser meu amigo escondido, sempre a brincar comigo, a correr a meu lado e a adormecer em meu leito, e isso era verdade pois eu conversava com ele e ele me falava coisas de nossa intimidade, na plenitude de minha infinita inocência.
Quando minha avó viajou, esse menino bom às vezes vinha com ela aos nossos encontros, e ambos murmuravam em meus ouvidos suas bênçãos e suas canções de me adormecer.
O tempo fingido e dissimulado, num dado instante começou a mover-se e a apressar seu passo, a atropelar os minutos, horas, meses, anos, cada vez mais rápidos no seu transcurso.
Ao longo desse tempo voraz e veloz, outras tantas pessoas amadas também partiram, e eu, já não inocente, nem crédulo, perdi-me algumas vezes à procura do
Jesus adulto, e nem sempre me foi fácil conversar intimamente com ele, como antigamente.
Talvez os homens antigos acumulem vícios e pecados, desesperanças e cansaços, e um ceticismo diante de algumas verdades improváveis, e por isso, desaprendam a voz de seu coração, o idioma simples de seu sentimento, o tom ideal para conversar com os próprios humanos, e com Deus.
Tenho notado, com meus olhos vividos, incontáveis diálogos tornarem-se impossíveis pela expressão brutal de quem não pensa e não sente senão com seu pensamento irracional, seu sentimento anestesiado, e com o impulso de seus instintos degenerados.
O tempo passa rapidamente, e não me permite acompanhá-lo num sincronismo natural.
Há um descompasso entre os fatos emergentes e a percepção humana, sua compreensão, e a formação de sua consciência.
Tudo voa como estilhaços de aço na explosão dos fatos/artefatos numa guerra sem ideias e sem razão, nos espaços universais das mentes em multidão.
Deram-me todas as liberdades, menos a liberdade de não querer ser livre. E de não querer repetir, sem ser condenado pelos politicamente corretos, as falsas verdades proclamadas por supostos libertos, aves tagarelas, papagaios unívocos.
Quando chegar a vez de minha viagem, quero ter a coerência de levar, como bagagem, o fardo e a leveza aceitos e carregados nos ombros, em toda a minha vida.



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