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O lixo que seremos

10/01/2026 Luiz Dias Guimarães
O lixo que seremos | Jornal da Orla

A lixeira nem estava cheia. Mas nela não cabia a embalagem de pizza, e por isso alguém a colocou por cima. Até que um catador arremessou a embalagem para longe e pescou duas latinhas vazias, deixando espalhada a caixa de papelão com restos de muçarela e tomate.

Pensei em chamar-lhe a atenção, mas certamente não reagiria bem. E por que desafiar o brio desse homem tão dilacerado quanto o que restara da pizza? Deveria então repreender muita gente, inclusive a mim próprio, lançador contumaz de bitucas na rua.

O lixo invadiu minha mente. Lembrei que na véspera a rua estava tomada de montanhas de lixo teoricamente reciclável. Nem tanto, pensei. Esse material todo, recolhido na noite anterior, nem sempre continha só recicláveis. E mesmo estes provavelmente seriam descartados em alguma aterro.

A civilização é pródiga em produzir restos. Desde os tempos medievais, quando se lançavam excrementos humanos pela janela. Agora produzimos mais para consumir mais ainda.

Há verdadeiros continentes de garrafas pet boiando nos mares. Há cemitérios imensos com bikes sem serventia, sem falar em restos de aviões, tampouco nas milhões de escovas dentais com cerdas gastas. Saudade do leiteiro que diariamente deixava em minha porta um litro fresquinho em troca do vasilhame vazio. Antes não havia tantas embalagens descartadas diariamente.São os restos civilizatórios que despejamos feito dejetos pela janela.

Os sistemas de coleta e reciclagem são insuficientes para dar o fim adequado, se é que tudo se possa reaproveitar de algum jeito. Esse é um dos maiores desafios dos gestores públicos e do setor industrial, sem dúvida. Mas acima de tudo é uma questão cultural.
Senti-me envergonhado quando em visita ao Japão. Percorria as ruas sem ver um papel de bala sequer. Tampouco vi lixeiras. As pessoas guardam tudo na bolsa e bolso para dar o destino correto em casa. Esse é o país em que as crianças na escola limpam as salas de aula e banheiros. Se aqui agirmos assim vão processar a escola.

A higiene urbana deve refletir a higiene individual e isso começa por arrumar a cama. A mente requer faxina, ordem e limpeza. Vale para pensamentos como para meias deixadas debaixo da cama.

Volta-e-meia grupos fazem mutirão nas praias, um começo. Ideia inteligente surgiu na Suécia em 2016, válida para se aplicar em nosso país, tão afeito ao esporte. É o plogging, atividade de corrida em grupo. Os jovens atletas vão pelas ruas praticando o esporte, com um saco e pegadores. Enquanto correm recolhem o que estiver pelo caminho. A ação combina esporte com consciência ambiental.
Seja o que for, é preciso agir urgentemente, a começar por nossas cabeças. Não basta criticar o catador. É preciso rever a produção de tantas embalagens e criar a consciência ambiental desde criança. Se não, o lixo irá nos devorar. Ou nos transformaremos nele.