
Os dois neurônios alojados no meu cérebro são produto de minha involução natural a partir do tempo situado num passado entre ontem e hoje ou neste futuro vigente entre hoje e amanhã.
Eu era um incriado, e de repente comecei a existir, e antes de tornar-me gente eu talvez tenha sido um cubo de gelo, e depois uma filosófica e erudita bola de meia.
Enquanto no processo de evolução os seres humanos conseguiram entulhar seus cérebros com bilhões de neurônios emaranhados, embaraçados e congestionados – eu – agora uma ameba evoluída, ou uma bactéria superdotada estou em vias de possuir um terreno baldio entre meus antigos ossos do crânio por onde, quem sabe, perambulem livremente meus dois neurônios remanescentes, calmos e distraídos.
Com essa dupla dispersa dentro de minha cabeça oca, passei a ser um ente já quase totalmente desprovido daquela antiga inteligência, praticamente em extinção.
Cada um de meus dois neurônios restantes é hipoteticamente independente e dotado de vontade própria, e eu a eles me submeto e os obedecerei.
Creio ser o resultado da autonomia de cada um deles, que não se embaralham, não se confrontam, não disputam entre si para dispor de mim ou me anular, nem tropeçam um no outro quando lhes couber determinar minhas intenções e ações, ou reger meus sentimentos, desencadear minhas loucuras, estabelecer minha sensatez, ativar minha memória, ditar minhas emoções. A noção do mundo e da vida, e a própria noção de mim mesmo, dependem dos irrisórios gigabites de meus dois neurônios.
Em verdade, cada um deles pode desempenhar a mesma função do outro, mas prevalecerá a diretriz hierárquica do neurônio mais antigo, o primeiro a manifestar-se, ao contrário dos cérebros humanos ainda humanos onde se abarrotam bilhões de fios condutores capazes de promover infinitas possibilidades e respostas, embora nem sempre evitem a ocorrência de colisões e engavetamentos, curtos-circuitos, fusíveis queimados, e queda de disjuntores, intimamente relacionados com a falência do sistema mental.
Meus dois neurônios não me concedem tudo, nem mesmo a ilimitação dos sonhos. Mas ao menos não me farão confuso, nem haverão de infundir-me a crença de eu ser uma divindade ou um demônio, gênio ou super-homem, um ser sobre-humano ou sobrenatural.
Tenho receio dos humanos superdotados de sapiência. Eles tudo veem, conhecem, dominam, entendem, adivinham, e em suas mentes o bem e o mal são um conceito estendido desde a hipocrisia e a estupidez politicamente correta até o juízo de censura, de crítica, de absolvição e de condenação sobre seus pobres circunstantes muito distantes de serem seus próximos ou semelhantes.
Quando, pela ação dos dois neurônios o instinto e a loucura atuam, obedeço prontamente atendendo às suas imposições e, então, torno-me incontido e insano porque neles não parece haver os comandos da prudência, da razão e da continência, ou se existem, manifestam-se tardias, no atavismo onde predominam a preguiça ou o cansaço.
Cada vez mais esses Tico e Teco, resíduos involutivos de minha mente, estão exauridos por terem que exercer agora sozinhos a função dos bilhões de neurônios condutores das mentes humanas resolvidos a debandar em massa dos incontáveis cérebros onde foram condenados a cumprir severos trabalhos forçados à custa dos neurônios predominantes e despóticos, arquitetos do pensamento torto e invasores indevidos da alma humana.
Se meus Tico e Teco não me permitem entender e acompanhar o mundo torto nesta pós modernidade degenerante dos valores estabelecidos, ao menos não me adaptam ao banal e ao inútil pois ambos, solitários, fazem-me resistir e manter a sublime emoção de não fragmentar minhas coerências e meus sentimentos, como seu eu fosse um ser humano, como se eu fosse gente.



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