
Alguém disse que a estupidez é pior que a maldade, pois esta se pode combater. Sei que ambas matam e é terrível pensar na existência do mal-querer no lampejo da vida neste plano em que respiro, penso e desejo.
Entendo por que se disse que a maldade pode-se combater. Mas a estupidez não, essa que contamina e desidrata a natureza humana. Às vezes penso tratar-se a estupidez de uma resistente bactéria que nos faz distorcer a percepção e aflorar os mais primitivos instintos, à medida em que destrói neurônios do cognitivo individual e inflama os nervos da barbárie. A neurociência já estuda o quanto acreditar de forma extrema numa ideologia pode afetar o cérebro. Vale também para o plano espiritual.
A incompletude do ser faz com que se busque explicação para a existência. Não vemos sentido pensar que existimos do nada e aqui estamos por motivo algum. Não nos conforta pensar que não dependemos de nada, nem de ninguém, para superar as agrúras. Sempre buscamos o sentido em algo impalpável, e isso nos conforta.
Seja um sol, até um boizebu, nos apegamos ao profético exército para nos dar força e nos salvar quando sucumbirmos derradeiramente. Ninguém subsiste sem um deus, ainda que este seja o difuso Universo do qual somos sua mais concreta expressão.
Criamos a fé, que nutre as religiões, com credos, dogmas e ritos. A rigidez da prática coletiva alicerça o poder em cada momento civilizatório, oriental e ocidental, em qualquer hemisfério.
Penso nisso tudo porque sei que não nos bastamos. Ainda bem, já que viver implica ter um propósito. E por isso tudo, na gestão dos ilusórios dias coletivos, buscamos e firmamos nossa crença em seres que consideramos salvadores do bem-estar.
São seres que dão o norte de melhores dias ou nos conduzem ao infortúnio e que chamamos de estadistas, ainda que de um rincão de terra em que só buscamos segurança e zeladoria das ruas que percorremos cheios de esperança. Estamos sempre a fazer escolhas, que talvez não representem mais a solução de outrora. Afinal, de certa maneira não são mais os estadistas os detentores dos nossos destinos mundanos.
Na década de 70 fez sucesso um filme, Rede de Intrigas, que no melhor estilo de Huxley e Orwell, anteviu que o controle do mundo seria exercido por difusas corporações sem dono. Hoje os fundos, tanto os soberanos de nações muitas vezes autocráticas, como os de inverstimentos surgidos no mercado de valores, a tudo e a todos se sobrepõem. Some-se a eles agora as fintechs que começam a criar uma tecnocracia.
É o chamado Sistema, poder econômico num cenário onde atuam muitas vezes seres movidos por interesses individuais e protagonizados por personagens aos quais só lhes resta personalizar bonecos de ventríloquo. Pouco é seu poder, parcos os propósitos de alguns.
O poder de quem atua nesse palco é frustrante para os sonhadores bem-intencionados. Os demais são personagens patéticos ao causar e lacrar com suas besteiras lançadas multimidia, que causam efeito em parcela dos que os ouvem. Há sempre narrativas que fazem, como dogmas, a cabeça de seus rebanhos, necessitados de crer em alguém, ainda que às custas do solapamento da verdade. Afinal, para tais, verdade é o que convém se acreditar.
Ah, que patético tempo vemos por aí, quando a necessidade de se confiar em alguém e deste esperar a felicidade coletiva, faz brotar a estupidez. Aquela que, diferentemente da maldade, talvez não se possa mesmo combater. Pois é a boçalidade que a alimenta.



Deixe um comentário