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Suplício da espera

17/05/2025 Luiz Dias Guimarães
Suplício da espera | Jornal da Orla

Cansei de esperar. Desde sempre eu espero. Esperei pelo constante afago do pai e o peito da mãe. A brincadeira com a vizinha, a recepção na escolinha, meus amigos. Esperei minha professora, que me ensinasse o que ainda não sei.
Esperei o crescimento e sonhava o que seria quando adulto fosse. Esperei que minha família estivesse bem, e eu também. Esperei conquistar a menina, esperei suportar se não me queria. Enfrentei as brigas, enfrentei o medo. Enfrentei o futuro. Também enfrentei doenças, tristezas e mortes. Minha maior espera não foi do que seria um dia, apesar de tudo. A maior espera foi pela vida culminada em morte de quem mais amei na vida.

A vida me ensinou que esperar é sinônimo de enfrentar. Descobri no primeiro fracasso. Mas enfrentei. Enfrentei os livros, os desafios, os diagnósticos, as sentenças e até os sucessos. Enfrentei o amor. A luta pela liberdade, a democracia. O trabalho, sempre com novos desafios.

Quando penso na espera lembro do poeta russo Konstantin Simonov, em seu poema ‘Espera-me’, um tributo à liberdade, escrito no campo de batalha durante tantas guerras que cobriu como jornalista. O poeta sim, melhor do que ninguém, soube o que é esperar.

Mas eu, como todo mundo, também esperei muito a vida inteira. Acho que a espera é um permanente estado da vida. Não a espera simplesmente do que virá sem fazer nada, mas a espera do resultado do que se fez ou deixou de fazer.

Talvez esperar seja uma arte. Conter a ansiedade e a angústia também. Mas como é terrível esperar! Parece que não fazemos outra coisa. Até dormir é esperar o sono. E acordar é esperar ele ir embora e o sol brotar na janela. Esperar o ônibus, esperar o salário, esperar um gesto amigo, esperar me sentir bem.

O que não se espera é a morte, ironicamente única certeza. E por ilógico que pareça, em geral o que nos acontece de bem ou mal parte de onde e de quem não esperamos.

Estou cansado de esperar. Talvez o segredo seja não esperar tanto. E aí como ficam os sonhos, a ambição e os desejos? A esta altura sonho menos, ambiciono menos ainda e tenho poucos desejos.

Só tenho que cuidar para que a única coisa que não esperei esteja à minha porta. Que a morte me surpreenda quando chegar, dispensando-me do suplício daquilo que tanto vivi, a espera do que não quero ainda. Por outra coisa qualquer prefiro esperar.