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Sombras fora da caverna

26/07/2025 Luiz Dias Guimarães
Sombras fora da caverna | Jornal da Orla

Chegará um dia em que seremos sozinhos e nem as sombras existirão nas cavernas. A sociedade do espetáculo, que dopamina o espírito, assusta e cansa. A banalização do quanto nos expomos pode matar o instinto gregário de estarmos juntos.

Cada vez mais nos distanciamos de quem fomos um dia, seres plurais, esperançosos e divertidos, alimentando a querência de amar e misturar nossa existência.

A taxa de natalidade cai em muitos cantos do mundo, quem está vindo prefere morar sozinho, e quem já está aqui há mais tempo exercita o amor pelo app, onde a parceira é a sombra no quarto escuro. A superexposição que causa tanta inveja dos influencers e olimpianos também pode-se vivenciar no ecrã pelos simples mortais.

Ao criar um ‘eu’ interativo a IA expõe o clone virtual ao clamor, ao aplauso e às idiossincrasias humanas. E quem vive essa fantasia em pouco tempo se assusta e sai.

Não ouço mais o alarido das crianças na rua, só o latido dos cães, fiéis amigos. A enxurrada de informações transborda e exaure a capacidade de ler e pensar.

A pauta whoke capou a expontaneidade, tenho que pensar antes de dizer qualquer coisa no salão, e só reproduzo aquilo que me foi programado a repetir, ainda que não resista ao rigor da verdade. O que resta de juízo deixa o sentimento de que o mundo enlouquece e se esbofeteia.

Tenho observado cada vez mais meu silêncio, e, confesso, estou gostando da minha íntima companhia. Não sou único na fuga do que está na floresta e no recolhimento numa urbana caverna. O mercado, atento às tendências, já oferece imersões no vazio.

A internet explora nova modalidade de turismo de experiência, mas na verdade, de descontaminação. A abstinência de gente e do algoritimo, ainda que temporariamente, gera nova opção. Na beira do Tejo, longe do Chiado e do Rossio, alugam-se chalés isolados onde só se ouve o som dos passarinhos.

No interior paulista, um empreendedor com cara de ermitão oferece hospedagem em sítio para os hóspedes ordenharem uma vaca, subirem em árvores e molhar o anzol. Outro, habitante da serra catarinense, comprou um container e o revestiu de conforto térmico, oferecendo imersão na neblina ou, com sorte, no chamuscar da neve.
Em grandes cidades habitam alguns loucos, que atraem outros mais, dispondo moradias nas torres das nuvens. Poderia dizer que é o prazer de viver acima dos outros. Mais provável, porém, que seja o desejo de se isolar onde já não há mais espaço, e as gaivotas se tornam a melhor companhia.

Sonho que nosso instinto gregário, num ímpeto de rebeldia e autopreservação, mudará o jeito com que estamos vivendo, mas sem muita convicção. Fosse factível a minha esperança, estaríamos brigando menos, radicalizando menos ainda, e exercitaríamos o jeito brasileiro de zoar e, ao dar apelidos aos outros, resgataríamos a forma de acarinhar e chamar de amigo.

Teríamos então saudáveis opções de viver em sociedade, como foi por tanto tempo e éramos tão felizes. As únicas sombras eram das árvores que chamavam ao cochilo. Dispúnhamos a cadeira na calçada ao abrigo de boa conversa, dávamos gargalhadas, tirávamos sarro do vizinho e, animados, íamos para casa fazer amor, enquanto meninos jogavam bola na rua e as meninas pulavam amarelinha, atentas a alcançar o céu.