
Desculpem-me, a ignorância, pacientes leitores. Pouco, ou quase nada sei sobre as aves. Ensinaram-me, no colégio, a distinção dos animais em cinco espécies: mamíferos, aves, peixes, répteis e batráquios. As aves, especificamente, têm asas, põem ovos, possuem penas e bico.
Assim, com o correr do tempo e uma cuidadosa observação, pude descobrir as diferenças entre a galinha, o avestruz e um beija-flor.
Pareceu-me, sempre, fundamental o vôo, antes de qualquer outra característica, para designar um animal como sendo uma ave com A maiúsculo.
Sem prejuízo de meu respeito devotado às galinhas, limitadas a breves e desesperados vôos de baixa altitude, e de meu apreço pelos cordiais avestruzes que jamais os vi voar, reconheço como sendo aves legítimas e autênticas apenas aquelas capazes de rasgarem os céus em vôos formidáveis.
No livro Fernão Capelo Gaivota, o texto materializa o voo do pássaro em sua incrível ascensão a uma altura inatingível para conseguir, na queda vertiginosa, o mergulho mais profundo nos abismos oceânicos. Eis aí uma Ave.
Certa vez eu estava no topo deserto e silente dos Andes, onde o único sinal de vida, entre o dorso da cordilheira e o azul infinito, era a evidência de um coração batendo, audível, no meu peito. De repente, um condor despontou voando em círculos, lentamente, quase no limite daquele infinito azul, e ali permaneceu, como um exemplo solitário, mas fantástico, do milagre da vida. Era ali, uma Ave.
O albatroz alça pesadamente seu voo, e exausto ganha a altitude definitiva onde se torna leve como a brisa, e plana sobre os mares, cruzando com águias, falcões, gaivotas, urubus e com a simetria dos bandos de aves de arribação.
Certa vez, conheci a imagem e a história de um pombo-correio.
Seus donos o soltaram em terras de França para ele regressar à sua morada, na Inglaterra. Mas a ave desapareceu. Transcorrido o tempo de duração para o vôo de regresso, vários dias se passaram e, como o pássaro não chegou a seu destino, deram-no como morto.
Mas diante da perplexidade de todos quantos souberam de sua história, o pombo-correio apareceu em Nova Iorque. Graças aos dados para a identificação, trazidos em seu corpo, o pequeno pássaro foi reconduzido à Inglaterra, num avião, e voltou à convivência com seus donos. Eis ali, uma Ave.
Talvez num instante de insubmissão ao destino de cumprir rumos e encontros marcados, o pombo aventurou-se a conhecer novos espaços, outras distâncias, caminhos diversos.
Poderia ter voado para ilhas baldias, praias não adivinhadas, montanhas inacessíveis, florestas virgens, lugarejos perdidos nos mapas, aldeias antigas, espaços desconhecidos de continentes e oceanos.
Mas a ave solitária, carregando com ela o milagre da vida, venceu a distância que nossa limitação humana, incapaz do sonho de Ícaro, transpõe apenas nos pressurizados aviões de carreira. E escolheu chegar à cidade notável onde poderia ser identificada com alarde pela repercussão de seu gesto e, portanto, isso lhe permitiria ser levada de volta ao convívio do lar original.
Essas histórias que o cotidiano revela repetidamente, e que passam despercebidas diante de nossa cegueira ou de nossa indiferença, são imensos exemplos de que podemos empreender vôos inimagináveis, vencendo distâncias impossíveis, alcançando alturas infinitas, nas asas de nossos sonhos, que se realizam pelo trabalho, pelo esforço, pelo empenho, pela teimosia, pela perseverança e pela feroz insubmissão proclamada no verso do poeta: “não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí”.



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