
Devíamos contar a existência pelos minutos, especialmente os mágicos, aqueles que enfeitiçam nossa vida e a dos outros. Não duvide do poder de um minuto. A poeta lisboeta Matilde Campilho revelou: “A poesia, a música, uma pintura, não salva o mundo, mas salva o minuto. E é o suficiente. A gente está aqui para dançar um pouco sobre os escombros.”
A poesia é efêmera. Mas tem o efeito de iluminar o escuro dos dias, ou reconfortar a alma, e isso não é pouco. Como um sorriso na rua fria, lançado aos olhos do passante que não se sabe o quanto depende disso para recompor o fôlego.
A poesia, como um gesto, se esvai no curso do tempo, mas às vezes, ainda que não seja a intenção, mesmo sem salvar o mundo, é cânfora, é estímulo, ou conforto.
Quando vi uma artista,anônima para mim, pintando uma lixeira, escreví sobre a cena. Publicada a crônica, fui achado no Instagram pela bela autora, Ivy Gabrielli, do coletivo La Santista, que agradeceu pelo texto e gravou um post em que dizia: “Vou dormir com o coração quentinho!”
Não era minha intenção encantar a moça cuja circunstância chamara minha atenção. As palavras são assim. Alguns gestos também. A amiga Valentina Rezende lembrou-me como certa vez uma iniciativa sua impactou, sem querer, no feliz destino do artista santista Preó, hoje em Barcelona. Nossas ações, especialmente na vida pública, têm o dom de determinar muitas vezes a vida de alguém.
Há quase 40 anos, minha amada mãe chegou em casa contando o encontro com uma velha amiga que se pôs a debulhar muitos infortúnios que estava vivendo com sua família. E quando minha mãe lamentou profundamente, a senhora, retirando da bolsa uma folha amarrotada de jornal, comentou: “O que tem me confortado é este texto que leio diariamente”. Era uma crônica de Natal que eu havia publicado.
Essa lembrança trago comigo a me acalentar como outras tantas repercussões que surpreendem a vida. Normalmente quando se escreve simplesmente se expele o que ruge dentro, sem saber o quanto isso pode atuar na alma de alguém, ainda mais de uma artista como Ivy. E de outros personagens que recentemente retrarei, como Zé Corneteiro, Zezinho do Heinz, a Florista das Ruas…
A poesia não salva o mundo, infelizmente, mas, sim, Matilde, pode salvar o minuto, e isso é suficiente para justificar o quanto os minutos enriquecem nossa vida e podem fazer todos, inclusive os poetas, dormirem com o coração quentinho. E isso é o bastante, diante de tantos escombros.



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