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Salas vazias

05/04/2025 Luiz Dias Guimarães
Salas vazias | Jornal da Orla

Um casal se consolida na cama. Uma família, na mesa de jantar. A sala é o celeiro dos filhos pro mundo. Mas hoje as telas ergueram paredes que não se vê, com argamassa de silêncio. E a sala é mera plateia de streaming onde a janta é a própria família, que nem se vê.

Nunca esquecerei aquela madrugada em Salvador. Era o comecinho dos anos 70, acabávamos de assistir ao show Refavela, com Gilberto Gil, no Teatro Castro Alves. Nana, minha amiga princesa, que sempre me acolhia com todos os mimos na capital baiana, lançou um convite ao grupo de amigos: “Vamos pra casa em Itapuã tomar conhaque e tocar violão?” O ímpeto juvenil, que às vezes afronta os limites, fez-nos atravessar Salvador até à praia, sem darmos conta de que já era madrugada.

Nana morava próximo ao Farol da Barra, mas era verão e a família se refestelava, todos juntos, na casa de praia para saborear as ensolaradas férias.

Logo que entramos no amplo bangalô, armados de conhaque e violão, sentamos em roda no chão da sala e começamos a dedilhar Refavela. Não deu um minuto sequer e as portas ao redor foram-se abrindo. E por um momento achei que tomaríamos um pito do pai de Nana por tanta ousadia.

Mas que nada. Foi o primeiro a sentar-se na roda, seguido da mãe e dos irmãos pequenos, de pijamas, um deles saboreando sua chupeta com olhos quase cerrados como se carregasse restos do sonho. Então esvaziamos a garrafa e uma hora depois nos despedimos todos, felizes de tanta harmonia.

Lembro a cena para ilustrar a importância da sala, da convivência em família. E até das mesas de jantar, onde diariamente ao cair da noite, atualizavam-se as novas, os pais davam ouvidos, os filhos descreviam as descobertas da vida e eventualmente levavam bronca pelas notas da escola, que os obrigavam a mergulhar nos livros ao invés dos desenhos em branco e preto da televisão, antes de dormir.

Casas são hoje pequenos labirintos, diferentemente da que frequentei em Itapuã, com todos os cômodos ao redor da sala, feito pétalas de uma margarida. Ou como qualquer outro lar, onde o ritual do jantar era sagrado. Ainda que haja sala, é plateia de streaming em que cada um consome sua dopamina, entre invisíveis paredes, ou, pior, absorto em salas virtuais. Monstros se escondem nessa famigerada ceia de fantasia.

Foi preciso a Netflix produzir a série Adolescência para enxergarmos que nas novas salas não há resmungos e conselhos para gente em formação. Mas sim perigos e a ilusão de ter uma família, agora tão virtual quanto os sonhos e desafios. Pois a mesa real ficou fracassada e vazia.