Artigos

Olhos nos olhos

27/09/2025 Vicente Cascione
Olhos nos olhos | Jornal da Orla

O juramento é o manto da perfídia, disse um romancista. No tempo de minha infância era fácil descobrir quando um de nós estava mentindo. Bastava alguém dizer: – “se for mentira, podem morrer teu pai e tua mãe?” Se ninguém respondesse: – “pode”, era mentira. Ninguém se arriscava.

Podíamos correr outros riscos, mas esse não. Mentia-se, mesmo se o juramento falso trouxesse o castigo de cair um raio na cabeça do mentiroso. Nesses casos, não sobrevinha pena alguma. Jurávamos fazendo figa. E a figa era um salvo-conduto.

Mas aquela impunidade dos moleques do mundo talvez tenha sido o estímulo para a coragem de os adultos, mais tarde, mentirem livremente, sem a censura da consciência.

Inicialmente, o relacionamento social instituiu uma singela mentira convencional, necessária, admitida como inofensiva e superficial. Mas, em seguida, a passagem para as mentiras fatais, foi inevitável.

Até há pouco tempo a inviolabilidade do pensamento era marca individualizadora da criação. Era bom pensar, e manter secretos os pensamentos, embora já se tenha dito que só é feliz quem não pensa.

Estou de acordo. Mas as mentiras, quero dizer, algumas mentiras não poderiam permanecer ocultas. Não aquelas, absolutamente necessárias, úteis, ou piedosas, que servem à caridade e à bondade, e que são aliadas da virtude.

Refiro-me às mentiras de cujo parto nascem a perfídia e a hipocrisia transformadas em tônica do relacionamento humano. Mentiras capazes de contaminar todas as verdades pondo tudo sob suspeita, desvalorizando homens, gestos, sentimentos e a própria vida.

Inevitavelmente, quando incontáveis criaturas se dedicam à praxe de mentir, à profissão de mentir, ao vício de mentir, ao hábito de mentir, e à compulsão de mentir, acaba-se por não se crer em coisa alguma. Não se acredita na virtude, no bem, na bondade, no amor, e supõe-se não existirem senão interesses escusos; parece não haver uma palavra verdadeira; nada.

Talvez chegue o tempo em que, para obter-se a revelação de imprescindíveis verdades ocultas, não haverá necessidade de inócuos juramentos sobre coisa alguma. Nem será necessário infundir-se o temor de males, como castigo, para que o mundo se proteja das mentiras e dos mentirosos.

Bastará que os olhos de quem disser meias verdade pisquem intermitentes luzes amarelas como um severo e grave sinal de atenção.

Mas no caso de mentiras totais e absolutas, ofuscantes luzes vermelhas e sirenes ensurdecedoras serão a prova das confissões de mentiras desmascaradas num enlouquecedor festival de som e luzes.

Em verdade, haverá uma barulheira infernal e apocalíptica atordoando todo o mundo. Mas será útil e confortador esse trágico estardalhaço emitido pela revelação das mentiras.

Só assim será possível descobrirem-se todas as verdades existentes na decência de olhares e caras mantidas em serenos e profundos silêncios.