
Só um sorriso desarma o gatilho e derrete o coração. Sorriso é expressão do sentimento. Às vezes irônico, em geral prova de contentamento. Não sou de sorrir com freqüência, acidente do signo em que nasci. Errado virginiano não sorrir tanto, crítico contumaz que é.
Há quem sorri com a boca e quem prefere o olhar, o que me encanta mais. Sorriso não é riso, há de se diferenciar. Quem sempre ri é bobo, tem que economizar para os momentos de graça. Mas quem não ri , sorri tampouco, é um azedão. Ou reclamão. Porém mais Importante que sorrir é relevar os erros.
Quando completei 60 anos, me desafiei no espelho. Daí em diante, na pior idade, quero ser um ranzinza ou um sábio, como tia Cléo, bem vivida e por Deus experimentada? Amparou uma filha que por 21 anos sobreviveu em seus braços, vítima de acidente do fórceps ao chegar à luz. O jeito dos anjos chegarem, como me parecia toda retorcida e entrevada, babando e gemendo feliz.
Tia Cléo foi para mim um exemplo. Mulher reservada, de pouco rir .Mas sua disposição para ajudar era absolutamente sem medida. Velou minha mãe em sua última madrugada. Ajudou a mim e aos meus irmãos, serenou meu pai nos momentos de maior aflição.
Não fossem suas provas de total generosidade e desprendimento, tia Cléo era de ouvir. E quando lhe contavam qualquer problema, suspirava e dedilhava à mesa:” É assim mesmo, tá tudo certo!”
Tia Cléo era leve como a luz da manhã. Resignada e conformada. Discreta, não criticava nada e ninguém. Apenas suspirava. Sabia que a perfeição não é uma regra da vida.
Tenho buscado ser como ela. Nem sempre consigo, maldito signo a me infernizar e mais ainda aos que me suportam. Faço exercício diário para melhorar. A vida já é muito pesada, não preciso lhe impor mais carga.
Penso sempre na tia Cléo. Afinal, melhor que o riso, ou um falso sorriso, é o suspiro da compreensão de como as coisas são, não como eu gostaria que fossem, e não sou eu que vou mudá-las. Nem me achar o sabichão do mundo.



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