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O sumiço do ser e da espera

22/11/2025 Luiz Dias Guimarães
Envato

Não existe angústia maior que a dúvida da espera. Não existe felicidade maior que o reencontro. Quem espera vai além da própria esperança, mergulha na súplica, salta no desespero do não saber. Quem reencontra vive com glória a sublime morte da incerteza.

Sempre choro quando vejo vídeos de soldados americanos que voltam da guerra. Filhos, pais, mulheres vivenciam o momento mais intenso da alegria. Ao contrário daquela mãe que abre a porta e se depara com um oficial trazendo uma bandeira cuidadosamente dobrada como única relíquia da espera que jaz nas mãos trêmulas a indicarem um herói.

É o funeral da esperança. Nada angustia mais que a incerteza. A dor
da morte é ainda maior quando enterra junto a espera. E é sempre mais dolorosa quanto maior o amor, mas não deixaríamos de amar para fugir dessa fatal verdade.

Não é preciso haver a guerra para alvoroçar sem limites o espírito aflito. Ainda pior que a morte de um filho, é seu sumiço em qualquer circunstância, alguém que evapora às vistas da mãe ou do pai.

São extremos do sentimento que se expõem no curso da vida. A vida que se esvai, a vida que volta para o colo. São as emoções do suplício da espera.

Há também outra verdade vil, a de quem escolhe partir. Não há quem não diga, em algum momento, que tem vontade de sumir. Poucos realizam suas palavras, de alguma forma.

Pondo fim à sua vida ou simplesmente se embrenhando num mundo distante do que viveu.

Não vou refletir sobre a decisão de partir. Fico pensando apenas no fenômeno que os japoneses chamam de Johatsu, a evaporação de um ser do seu meio. Há no Japão profissionais do sumiço, os Yonigeya, movedores noturnos, aos quais recorrem os que desejam abduzir em meio à madrugada. Às vezes são levados para bairros de Tóquio onde ninguém faz perguntas. Outras vezes recorrem a cirurgia plástica e mudam de identidade.

São variados os motivos de alguém que queira efetivamente sumir. Mas estes não abdicam da vida, ao contrário. Buscam uma
nova possibilidade de vivenciar a existência. Diferentemente de quem escolhe a morte, por inconsciência
ou para pedir socorro.

Ação extrema afora, todos nós desejamos sumir um dia. Porque a carga da vida é pesada, porque viver é resistir. Porque viver é desejar muito além do que nos espera cada dia, do que desejamos, do que achamos merecer nos dias.

Nós sabemos tudo que merecemos e raras vezes recebemos. Nós sabemos o quanto amamos a vida, que não temos com todo o esplendor. Nós sabemos, enfim, o quanto amamos, e sentimos nas entranhas a triste notícia da perda, ainda que tarde a chegar depois de incontáveis madrugadas de espera.

Mas também, com muito boa sorte, o sucesso da espera, a boa nova do reencontro de quem tememos um dia partir.
Esse é o sentido da vida. Desejar sumir sem querer sumir. Esperar ainda que haja muito sofrimento. E reencontrar quem temia haver perdido. São todos os extremos do sentir, nesta passagem em que reina, soberana, a esperança.