
Outra vez estou na estrada, nesta monótona viagem noturna. Não tenho companhia; e nem mesmo esse locutor de rádio, a quem escuto, não reconhece minha atenção. Seus ouvintes, como ele mesmo confessa, são os caminhoneiros em longos percursos pelas estradas do Brasil.
Afinal de contas, prezado speaker dessa emissora pretensiosa, você alardeia falar para os solitários motoristas de caminhão do País inteiro; pois saiba senhor locutor, às vezes percorro estradas noite adentro e sem desmerecer os destinatários da presença sonora de sua voz, sigo em meu modesto automóvel, solitário também.
Além disso, saiba o loquaz locutor: atualmente não sou caminhoneiro, mas já o fui, há muito tempo, quando eu viajava nos meus sonhos de criança deitado sobre um tapete rústico, tangendo com as mãos o pequenino caminhão feito de madeira bruta por minha avó, ou quando eu revezava, com meu irmão, a condução de carretas e jamantas, cujas cabinas eram as cadeiras da sala de casa, arrumadas pela nossa imaginação.
Portanto, de certa maneira, o senhor poderia incluir-me entre seus ouvintes. Fui, no passado, um campeão das estradas. Não desses caminhos estreitos e finitos por onde rodam seus distintos ouvintes. Mas de espaços abertos pelo sonho, no rumo de lugares impossíveis, onde as ondas de sua emissora de rádio nunca ousaram alcançar.
No entanto, não nego a razoável utilidade de seu programa, meu caro speaker noturno. Ainda agora, vossa senhoria põe-se a ler mensagens de caminhoneiros endereçadas a outras pessoas, e vice-versa. Januário avisa sua esposa, de Itajaí, de que somente estará de volta na próxima semana e eu lhe desejo intimamente, boa viagem.
E penso nessa mulher de Itajaí, companheira de um Januário distante, prisioneira solitária de rotineiras esperas, ouvindo o rádio, quem sabe, e consolando-se com isso.
Na enxurrada de recados, um pobre Acácio desolado informa o roubo de seu caminhão. João conta ter sofrido um acidente, mas já está bem e retorna para Ponta Grossa. Etelvina diz ao seu moreno do Scania dourado, estar morta de saudades a cada dia de ausência. Mas Etelvina parece haver alcançado, apesar da saudade mortal de cada dia, a graça da ressurreição cotidiana. Menos mal.
No entanto senhor locutor, desta outra, chamada Jandira, corta-me o coração o seu apelo. Ela pede notícias de Antenor, em seu caminhão Mercedes azul, placa YK –3436; ele passou por Valadares, na rota Nordeste-Norte. Faz quatro anos e Jandira ainda procura por ele.
Nesse momento desligo o rádio. Mas fica-me um sentimento de inconformismo. O malvado locutor, cúmplice do impiedoso Antenor não deveria alimentar a tola esperança dessa mulher angustiada, de Governador Valadares, repetindo, a cada mês, seu inútil chamado, pois o tal Antenor não é digno de seus apelos, sua angústia, seu amor, seus desejos, suas saudades.
É doloroso, mas é necessário confessar-lhe: Antenor, codinome de um passageiro da noite, é um desses homens de apenas um instante, o momento, a palavra, o beijo, o toque, a posse, a promessa vã, eternizados na alma dessas incontáveis Jandiras desamadas, abandonadas à beira do caminho, à beira da vida, de olhos fixos num horizonte deserto, onde se move, no rastro de quem não volta, apenas o pó da estrada.



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