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O mamute Lulu e eu

14/06/2025 Vicente Cascione
O mamute Lulu e eu | Jornal da Orla

Em Londres, o Museu de História Natural guarda imagens concretas de seres do planeta Terra, desde espécies extintas, fósseis e esqueletos habitantes das eras mais remotas, até os espécimes contemporâneos deste cronista antigo.

Na tarde fria, lá estava eu diante de um tipo imenso, indócil e movediço cuja identidade um dos meus netos ensinou-me ser a de um simpático sujeito pré-histórico chamado tiranossauro rex.

Lá pelas tantas, naquele vai e vem dentro do museu, uma parte da família desapareceu no meio da tarde embrenhando-se em labirintos onde, se marcar bobeira – como dizem os mestres do idioma – ninguém acha ninguém.

Antes do fim do dia, todos se reencontraram num ponto de convergência, depois de maratonas, gincanas, travessias e epopeias das quais os mais jovens e saudáveis são incansáveis protagonistas.
Mas quando eu me perdi, naquele fim (ou começo) de mundo, dentro do museu, instalou-se na turma uma grave preocupação com o meu sumiço. Onde estaria o frágil patriarca desaparecido?

Como as comunicações telefônicas entre os membros da família, em terras estrangeiras, dependiam das toscas e paleontológicas conexões com o sistema de comunicações do Brasil varonil, ninguém conseguiu falar comigo por celulares, torpedos, internet, whats up, nem tampouco pela tecnotelepatia entre cabeças íntimas.

Então, meu genro enviou mensagem aos familiares que tinham ficado no Brasil, pedindo para algum deles tentar contato comigo para localizar este desaparecido, dando-lhes cordenadas, azimuts, e longitudes para eu poder ser encontrado nos confins do museu, em algum continente perdido, num ponto obscuro do planeta, num promíscuo pub londrino, ou flutuando como uma folha de outono nas águas fugidias do Tâmisa.

Eu já reaparecera, mas a mensagem enviada por meu genro chegou tardia ao Brasil, só no dia seguinte, aos aparelhos eletrônicos de minha família. Então, quando eles a leram, todos pensaram que eu desaparecera no museu desde a véspera, sem mais ter sido encontrado.

Nesse dia seguinte, com as comunicações já quase recompostas graças às geniais providências dos pajés, e à tecnologia dos tacapes, arcos, flechas, e tangapemas, recebi um telefonema de um de meus filhos, designado porta-voz da aflição dos familiares que não viajaram. Ele perguntou sobre o meu paradeiro.

Não achei justo fazer suspense, nem brincar. Não se faz troça com a comovente angústia afetiva. No entanto, depois de esclarecidos os pontos colocados nos is, pensei nas hipóteses não utilizadas para me localizar.

Bastaria terem procurado, entre os espécimes expostos nos incontáveis recantos do museu, um velho advogado empalhado, revestido de pelos ou penas, oriundo de um tempo imemorial em que não havia becas, togas, pompas e circunstâncias, essas fantasias inventadas para a justiça parecer justa.

Ou poderiam buscar, entre fósseis petrificados, um antigo cronista de escritos rupestres ou cuneiformes psicografados, atualmente, por adeptos de uma literatura arqueológica.

Ou talvez eu pudesse ser encontrado placidamente postado ao lado de velhos companheiros de convívio doméstico, como o totó megatério ou o mamute lulu, gente fina que ainda se faz como antigamente, afinal, o que seria dos verdadeiros humanos desta pós-modernidade se não tivessem cães, passarinhos, gatos e papagaios para lhes ensinar lições de humanismo, coerência e lealdade?

Tentando ser sério e voltando a este tempo do mundo real onde vivo, proclamo minha comovida homenagem aos bichos e outros seres dos museus, que estão ali apenas por uma irrestrita gratidão aos olhos luminosos das crianças que os contemplam, sonham, riem e se assustam com a pureza de seus semelhantes os quais, à noite, com as portas fechadas, nas trevas do museu, brincam entre eles, renovando-se na eternidade de cada dia.