
O carro freou bruscamente e ela saltou esbaforida no meio da noite como se atrasada para um compromisso. Celular na mão, logo dividiria a atenção entre Tik Tok e mais um episódio na televisão. O homem desistiu de cobrar as lições de casa. Quem dera a menina tivesse saído às pressas para fazê-las. Mas por que a correria? Ainda não eram dez da noite e a primeira aula seria às sete e vinte do dia seguinte.
Sem querer se irritar, foi pro quarto e abriu o livro que comprara de Luiz Fernando Veríssimo, mas logo se frustrou. Queria um livro de crônicas curtas e engraçadas. O que levara não era o que buscava. O homem, tal qual a menina, estava sem disposição para leituras longas.
Na idade dela lia muito, inclusive as edições semanais de ZZ7, livrinhos sobre as aventuras de Brigite, filha de Gisele, espiã que morrera em Paris. Eram o equivalente às séries que a menina devora hoje.
Naquele tempo não havia televisão nem celular. Seu primeiro trabalho, aos catorze anos, foi vendendo coleções de Monteiro Lobato e enciclopédia Barsa, que um amigo do pai comprou só para incentivá-lo. Fato é que se lia mais. Eram outros tempos, outras mídias. E outros livreiros, pensou o homem, irritado com a compra que lhe custara sessenta e dois reais.
Lembrou da livraria da Rua Frei Gaspar, no Centro, onde menino vasculhava prateleiras em busca de descobertas. O velho livreiro não fingia conhecer tudo, mas caminhava entre as estantes com naturalidade. Parava só às 15 horas, quando amigos chegavam para disputar no palitinho quem pagaria o café.
O homem comparou o velho ao rapaz que o atendeu numa das poucas livrarias da cidade. O jovem correu ao terminal e digitou o nome de Veríssimo. Apareceram muitos títulos. Queria poder folhear, não ler no computador.
O vendedor o levou ao fundo e apontou: “A maioria está na prateleira de baixo”. O homem não entendeu o critério. Achou três obras. O primeiro era de outro Veríssimo. O segundo, para crianças. Acabou levando o de textos longos. Não que fosse ruim. Mas queria crônicas rápidas, com a ironia e sarcasmo que lia nos jornais.
Na cama, largou o livro e foi ao celular, onde dias antes rira de textos de Veríssimo no Google. Não conseguiu: a menina dominara o aparelho, já que o dela estava sem bateria. Restou-lhe dormir. Era quase meia-noite e a menina, quando cansasse do Tik Tok, ainda faria as lições. Digitalmente.



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