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O Corcunda de Notre-Dame

12/04/2025 Vicente Cascione
O Corcunda de Notre-Dame | Jornal da Orla

Acho útil repetir os versos de Mário Quintana:
Da vez primeira em que me assassinaram/ perdi um jeito de sorrir que eu tinha./ Depois, em cada vez que me mataram,/ foram levando qualquer coisa minha.

Ninguém escapa de sofrer muitas mortes reincidentes em nossas vidas. São extermínios intermitentes. Sucessivamente, morrem ilusões, esperanças e sonhos corredios dentro de minhas veias onde se tinge cada célula do meu corpo.

Para eu me sentir vivo, não me basta apenas ter este corpo pulsante e a frágil existência de uma alma imaterial e invisível.

A vida absoluta não sobrevive nos seres de corações insensíveis e cérebros baldios de pensamentos, capazes somente de promover o movimento de meras máquinas humanas. Estas, como eu pressinto, caminham, num breve tempo, para a imortalidade vindoura graças à cópia dos genes e à reposição de peças e órgãos nas oficinas quase mecânicas ou biológicas.

Mas a perenidade de uma vida sem sofrimento, desilusões, injustiças e perdas, de uma vida sem os pequenos assassinatos intermitentes a abater pouco a pouco a criatura no curso da existência, não está ao alcance da ciência dos deuses humanos, nem parece presente nos planos de um Deus original.

Todas as religiões e filosofias, todos os textos sagrados e profanos pretendentes a revelar verdades universais tropeçam na rebeldia ou na indiferença de quem não crê. E apenas a fé, flutuante além da razão, não se deixa atormentar pelas dúvidas diante dos dogmas e dos mistérios.

Racionalmente, não é possível conceber os futuros habitantes deste planeta, presumíveis herdeiros desta humanidade contemporânea artífice do prólogo do Apocalipse, como futuros personagens históricos do paraíso terrestre.

Somente os ungidos por uma crença absolutamente doentia, até mesmo inacessível às almas mais inebriadas pela fé, podem imaginar o advento de uma geração imortal, liberta dos vícios originais, capaz de usufruir a felicidade infinita, e de conviver em paz por toda a eternidade.

O Homem já deu todas as provas de ser – como sentenciou com bíblica exatidão o nosso Millôr – a única espécie animal que não deu certo.

Aos meus olhos, a primeira evidência da exatidão desse conceito não está nos outros, afinal é fácil encontrar a falibilidade humana nos defeitos alheios, embora sejam eles abundantes para confirmar o conceito.
Essa evidência inquestionável eu a vejo no espelho, no mau juízo feito em causa própria, diante das aberrações tidas por mim mesmo como casciônicas, e insisto, por serem da minha essência.

Sou um torto. E haveria discordâncias sobre isso, não fossem as vozes de meus próprios antagonistas os quais, por terem o hábito irrefreável de falar mal de mim, não aceitam o cumprimento, por mim mesmo, dessa tarefa, em causa própria.

Existem, claro, ricos de espírito, capazes de superar os pobres em suas bem-aventuranças. E há seres santificados, traficantes das sobras de suas indulgências e dos sermões valorizados nas pregações. E também há isentos de pecado auto permissivos em atirarem todas as pedras, das primeiras à última, contra o corpo da mulher promíscua pronta a lhes incendiar o tesão recolhido.

Mas me comovem, acima de tudo, os seres ditos normais, a carregar ambições frustradas, ódios contidos, virtudes triunfantes, loucuras sadias, éticas íntimas, suor e cansaço, invejas inúteis, esperanças em riste, sonhos prováveis, as dores do mundo, e a justiça de suas trágicas injustiças.

Esses, amarrados a este mundo, e condenados à mortalidade, carregam fardos sobre ombros vergados, ou se arrastam levando Esmeraldas imaginárias. São como eu e como tantos. São como o inocente e sublime anjo torto da Notre-Dame.