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Não somos ilhas

05/04/2025 Ivani Cardoso
Não somos ilhas | Jornal da Orla

Será verdade? Às vezes, parecemos ilhas isoladas, desconectadas do todo, aprisionadas em nossas próprias circunstâncias. O lendário ator Gene Hackman, já em processo de demência, faleceu em casa, e seu corpo só foi descoberto nove dias depois, ao lado da esposa, ambos mortos por causas naturais. A notícia repercutiu amplamente, ainda mais depois que um texto melancólico circulou nas mídias. E não é para menos. Uma figura icônica como ele morrer sozinho e esquecido é algo profundamente triste.

Esse é o grande temor de quem mora só. Mas, ao mesmo tempo, muitos escolhem essa solidão, erguendo muros invisíveis ao seu redor. Sei que é um assunto difícil, mas não pare de ler ainda — é necessário falar sobre isso. Tanto que foi um dos temas centrais do recente Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia, que terminou neste sábado (5) em Belo Horizonte. O evento abordou a qualidade de vida e o impacto da tecnologia na assistência e na saúde dos idosos e da sociedade.

Filhos e netos frequentemente se preocupam com pais e avós que vivem sozinhos. Para quem tem condições, a tecnologia surge como aliada: fechaduras inteligentes, câmeras de segurança, detectores de fumaça, sensores de movimento, pulseiras e celulares com monitoramento constante, além de assistentes virtuais para o suporte domiciliar. No entanto, esses recursos ainda são caros e, em um país tão desigual como o Brasil, permanecem restritos a prefeituras, planos de saúde e grupos privados.

Conversei com a Dra. Alessandra Tieppo, geriatra e diretora da SBGG, sobre um dos maiores riscos para idosos que moram sozinhos: as quedas. O número de acidentes do tipo não para de crescer. Ela explicou que as quedas são causadas por múltiplos fatores, como baixa visão, alterações osteomioarticulares (artrose, osteoporose, joanetes), fraqueza muscular, uso inadequado de medicações, hipotensão causada por desidratação ou remédios, além do consumo excessivo de álcool. Os fatores ambientais também contribuem: escadas sem corrimão, pisos irregulares, pouca iluminação, objetos espalhados pela casa, brinquedos infantis, fios expostos.
Para quem vive sozinho, recomenda medidas preventivas para evitar quedas e o risco de uma morte desamparada.

“As famílias estão cada vez menores e há menos pessoas disponíveis para cuidar dos idosos. É preciso refletir sobre o próprio envelhecimento e planejar como deseja viver essa fase. O convívio social e a prática de exercícios físicos são fundamentais para a qualidade de vida. Além disso, quem não tem familiares próximos precisa construir uma rede de apoio — manter contato com amigos, vizinhos, zelador, porteiro ou pessoas que conheçam sua rotina e possam verificar diariamente se está tudo bem. Cuidar dos nossos idosos é uma responsabilidade coletiva.”

Outro ponto crucial é reconhecer os próprios limites. Perder a autonomia — deixar de morar sozinho, dirigir ou fazer compras — é difícil de aceitar, mas como perceber que chegou esse momento? “Ninguém gosta de admitir que está mais frágil e precisa de ajuda”, diz a doutora. “Por isso, o planejamento para o envelhecimento é essencial. É preciso estar atento à própria saúde, reconhecer sinais de fragilidade e buscar ajuda quando necessário. Exercícios físicos, alimentação equilibrada, acompanhamento médico, atenção à saúde mental — tudo isso faz diferença. Fortalecer a musculatura, manter o sistema cardiovascular ativo e garantir equilíbrio são fundamentais. Além disso, a revisão periódica dos medicamentos pode ser crucial, pois muitos podem se tornar desnecessários com o tempo.”
Aposto que não doeu ler até o fim … E se você refletiu, valeu a pena.

Geriatra Alessandra Tieppo: “é preciso refletir sobre o próprio envelhecimento e planejar como deseja viver essa fase”