
Todo escritor busca, em seus livros, produzir uma introdução impactante, um final acachapante e um título interessante. Estes são, inclusive, temas recorrentes entre aqueles que se dedicam a estudar o ofício literário. Há quem diga que Anna Kariênina (Tolstói) introduziu a melhor primeira frase da literatura mundial. O final de Reparação (McEwan) é um assombro. E A Insustentável Leveza do Ser (Kundera) é um título que intriga à primeira vista.
Alguns destes elementos – guardadas as devidas proporções – estão presentes em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. O livro carrega um nome excêntrico, que agrada alguns e desagrada outros (há quem diga que o título parece um verso de um bolero ruim…). Mas, seja como for, cumpre o papel de chamar a atenção de quem com ele se depara. De igual sorte, o final – também bastante controvertido entre os leitores – causa impacto, tanto pela linguagem como pelo fator surpresa.
Entretanto, por certo que um bom romance não se faz só de título chamativo, frase introdutória interessante ou desfecho surpreendente. É preciso, evidentemente, muito mais. E o livro sob análise reúne bons elementos para se credenciar como um exemplar de qualidade literária satisfatória. Bem escrito, o enredo se passa num vilarejo que vive as tensões do garimpo. É nesse entorno violento que um fotógrafo, de passagem pelo local, tem o coração arrebatado pela intrigante moça Lavínia – ela que, em verdade e justiça, é a grande personagem da história. E então surge um amor improvável que se projeta em tempos sombrios e sob condições bastante adversas. Amor, crime, violência, cobiça, agitação social: eis os ingredientes fundamentais deste famoso romance brasileiro.
Motivos para ler:
1- Marçal Aquino lançou Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios em 2005. O livro recebeu uma belíssima reedição em 2025 que conta com dois posfácios: o interessantíssimo texto da professora Eliane Robert Moraes e outro do próprio autor, no qual, divertidamente, ele divaga sobre a escolha do título;
2- O romance particularmente brilha quando elabora duas abordagens laterais: a história de vida de Lavínia e o obsessivo amor do personagem careca, que lembra aquilo que é vivido em O amor nos tempos do cólera (Gabo). É impagável;
3– O romance é bom e foi escrito de forma bastante talentosa, mas não está imune às críticas. Uma delas, bastante contundente e com a qual compactuamos em alguma medida, é a caracterização do personagem principal. Cauby, principalmente na primeira metade do livro, talvez provoque um certo ranço na(o) leitora(o). Trata-se de um homem muito caricato que se acha interessante (e não é), muito atraente (também não é) e, em dados momentos, vaza um apelo que certamente pretendia ser sexy/escatológico mas que simplesmente não funciona – muito ao contrário, cai numa vala de baixa inspiração. Não compromete o excelente romance que é – principalmente da metade para o fim, quando a história toma um fôlego policialesco -, mas fica a impressão de que, sem essas caracterizações, o texto ficaria muito melhor.



Maravilha de texto. Vc merece td de bom
Nao conhecia ! Dica bem original, anotada. Parabens pela coluna
Todas minhas leituras são de resenhas bem escritas. Mais uma para lista. Obrigada pela dica.
Ótima resenha, Rafa! Ainda não li, apesar de ter o exemplar físico em minha biblioteca. Lerei! Excelente coluna!
Com certeza este livro deixa o leitor em meio a uma excelente trama, que envolve bons personagens, uma mistura de amor e acontecimentos que torna a leitura ainda mais interessante.
Nome estranho, mas vale a leitura
Grato pela resenha
Prezado Dr. Rafael, desafio vossa senhoria a fazer uma coluna de Anna Kariênina, caso não aceite, convido-o para um duelo com punhais mediante contrato com assinatura em sangue. Vamos nessa, já sabe onde me encontrar.
UAUUU….eu já te sigo no instagram porque adoro as suas indicações. Agora, serei mais uma a acompanhar as suas resenhas e artigos.
Virei fã.