Colunistas

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

21/03/2026 Rafael Medeiros
Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios | Jornal da Orla

Todo escritor busca, em seus livros, produzir uma introdução impactante, um final acachapante e um título interessante. Estes são, inclusive, temas recorrentes entre aqueles que se dedicam a estudar o ofício literário. Há quem diga que Anna Kariênina (Tolstói) introduziu a melhor primeira frase da literatura mundial. O final de Reparação (McEwan) é um assombro. E A Insustentável Leveza do Ser (Kundera) é um título que intriga à primeira vista.

Alguns destes elementos – guardadas as devidas proporções – estão presentes em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. O livro carrega um nome excêntrico, que agrada alguns e desagrada outros (há quem diga que o título parece um verso de um bolero ruim…). Mas, seja como for, cumpre o papel de chamar a atenção de quem com ele se depara. De igual sorte, o final – também bastante controvertido entre os leitores – causa impacto, tanto pela linguagem como pelo fator surpresa.

Entretanto, por certo que um bom romance não se faz só de título chamativo, frase introdutória interessante ou desfecho surpreendente. É preciso, evidentemente, muito mais. E o livro sob análise reúne bons elementos para se credenciar como um exemplar de qualidade literária satisfatória. Bem escrito, o enredo se passa num vilarejo que vive as tensões do garimpo. É nesse entorno violento que um fotógrafo, de passagem pelo local, tem o coração arrebatado pela intrigante moça Lavínia – ela que, em verdade e justiça, é a grande personagem da história. E então surge um amor improvável que se projeta em tempos sombrios e sob condições bastante adversas. Amor, crime, violência, cobiça, agitação social: eis os ingredientes fundamentais deste famoso romance brasileiro.

Motivos para ler:

1- Marçal Aquino lançou Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios em 2005. O livro recebeu uma belíssima reedição em 2025 que conta com dois posfácios: o interessantíssimo texto da professora Eliane Robert Moraes e outro do próprio autor, no qual, divertidamente, ele divaga sobre a escolha do título;

2- O romance particularmente brilha quando elabora duas abordagens laterais: a história de vida de Lavínia e o obsessivo amor do personagem careca, que lembra aquilo que é vivido em O amor nos tempos do cólera (Gabo). É impagável;

3 O romance é bom e foi escrito de forma bastante talentosa, mas não está imune às críticas. Uma delas, bastante contundente e com a qual compactuamos em alguma medida, é a caracterização do personagem principal. Cauby, principalmente na primeira metade do livro, talvez provoque um certo ranço na(o) leitora(o). Trata-se de um homem muito caricato que se acha interessante (e não é), muito atraente (também não é) e, em dados momentos, vaza um apelo que certamente pretendia ser sexy/escatológico mas que simplesmente não funciona – muito ao contrário, cai numa vala de baixa inspiração. Não compromete o excelente romance que é – principalmente da metade para o fim, quando a história toma um fôlego policialesco -, mas fica a impressão de que, sem essas caracterizações, o texto ficaria muito melhor.