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Minhas prisões

25/10/2025 Vicente Cascione
Envato

Instigado por uma crônica em outras páginas sob o título Minhas Prisões um leitor me pergunta se eu já estive preso. Não sei se ele quer saber se eu já fui preso, isto é, se já me trancafiaram num cárcere em nome dos bons costumes, de
ilícitos cometidos, ou da força do arbítrio, ou se sua indagação transcende a simples ideia do confinamento entre paredes e grades, e alcança a dimensão filosófica da reclusão existencial em que se aprisionam a alma, a mente, os sentimentos, esperanças, desejos e sonhos.

Na primeira hipótese, minha folha corrida é inexpressiva e medíocre. Nem herói, nem mártir, nem ao
menos um singelo bandido.

Consegui ser preso pela primeira vez, aos doze anos de idade por um temível soldado da velha Força Pública que me flagrou sentado sobre os trilhos do trem, junto à tosca estação de Ribeirão Pires.

Eu enfrentava um desafio. O de permanecer sobre a via férrea até o momento de o comboio chegar o mais próximo possível de meu corpo.

Foi o tempo de a locomotiva roçar minha roupa, e eu pular como como um canguru superando o desafio, para o soldado me agarrar e me conduzir até uma cela de paredes de madeira, na velha cadeia da cidade, de onde acabei sendo libertado por um habeas corpus telefônico de minha tia Nair Lacerda (em cuja chácara eu passava férias escolares de verão) brava mulher sempre reverenciada por sua expressão intelectual e moral muito além das brumas da bucólica e límpida Ribeirão Pires, naqueles idos de 1950.

Consegui ser preso pela segunda vez, com alguns companheiros da escola de Direito, transformados pelo tempo em desembargadores, diplomatas, juízes, delegados, promotores e advogados.

Ao som de um contido e comportado violão, o grupo entoava músicas vigentes no início dos anos 60, na calçada do jardim da praia, ali, no José Menino. Nascia a madrugada quando uma frota de viaturas da antiga Guarda Civil cercou o grupo: mãos na cabeça, teje preso, e as gentilezas de praxe.

No plantão de polícia, fui designado porta-voz dos trovadores delinquentes. Mas não foi preciso arengar. O delegado Abud, seresteiro confesso, meteu bronca na tropa de guardas civis, varreu os elementos do seu território evacuando o recinto e ordenou o prosseguimento da serenata, ali, no plantão, até raiar o primeiro sol da manhã, hora de as pobres meretrizes, nossas acompanhantes em afinado contracanto, e trancafiadas no fundo da carceragem, serem libertadas.
Consegui minha terceira prisão, em uma noite de 1971, à saída do então venerando Parque Balneário Hotel. Após uma reunião onde blasfemei e roguei pragas inúteis contra os deuses do regime, íamos todos embora, tarde da noite. Eu atravessava os jardins do hotel, em direção à avenida, para pegar um ônibus.

De repente, das trevas do jardim, como um lobisomem ou alma penada, materializou-se, diante de mim, um grandalhão de terno branco. Deu-me voz de prisão e ordem para eu ingressar num funéreo carro azul. Era um agente do Senimar, órgão de inteligência da Marinha. O gajo, amoitado, tinha ouvido meu discurso. Mas só me aparteou, no jardim, com a retórica da mão armada.

Eu era um jovem recém-casado, com dois filhos pequeninos.

Quem pode manda, quem não pode, obedece.

O agente do regime perguntou-me o endereço, e quis saber dos meus ofícios. Respondi-lhe que pelejava para ser um advogado, trabalhava em jornal, e lecionava História e Geografia, no colégio.

Ele me deu a chance de despedir-me da família, antes de eu ser levado para não sei onde. Quando o carro parou diante do prédio de três pavimentos onde eu morava, uma construção modesta e antiga, no Canal 1, perto do campo da Portuguesa, o agente olhou-me com aparente compaixão.

– “Desce, antes que eu me arrependa. Pode ir” – disse-me num tom de voz aparentemente comovido, sob a máscara de sua cara endurecida. Subi as escadas, sob o peso de minha liberdade. Eu amargava a sensação de estar imerecidamente livre, depois de cometer o mesmo crime inexistente pelo qual pagam tantos inocentes.

Como vê o amável leitor, falta-me cumprir uma prisão injusta, duradoura e sofrida para terem mais valor os textos com os quais continuo a esbravejar contra a apatia e a inércia dos desprovidos de sentimentos, e para serem consideradas mais úteis as palavras proferidas por minha voz nunca substituída pelo silêncio.