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Cupim

20/01/2026 Rafael Medeiros
Cupim | Jornal da Orla

Histórias com casas mal-assombradas são recorrentes nas práticas literárias e cinematográficas. Tão comuns que, quando vemos algum trabalho relacionado ao tema, olhamos com certo ceticismo. Entretanto, como tudo pode ser contado de outra maneira, a jovem espanhola Layla Martínez rompeu todos os lugares-comuns e entregou um romance muito original.

As vozes da avó e da neta – as viventes da casa – se alternam ao longo dos capítulos para contar uma história familiar de ódio e vingança de mulheres que foram humilhadas, exploradas, extorquidas, enclausuradas e usurpadas. Uma espécie de maldição sombria acompanha essas mulheres, como um cupim que as corrói de dentro para fora. Avó e neta, então, apropriam-se de toda a dor e levam a cabo o horror. Quando a justiça está só de um lado, o ressentimento realmente pode se tornar revolução.

Nos agradecimentos, a autora remete à avó, por “deixar contar a história de sua casa e de sua família. ”  Mais: agradece sua mãe “por acreditar na vingança”. E o leitor, pasmo, toma consciência de que os eventos tratados no livro possuem uma dimensão de realidade. Aconteceu, em alguma medida. E, sabendo disso, tudo fica ainda mais assombroso, não é?

Motivos para ler:

1- Layla Martínez, madrilena de 1987, estreou nos romances com este seu Cupim. O livro rapidamente se tornou um fenômeno em Espanha e foi levado para mais de quinze países. Vale a pena acompanhar de perto a carreira dessa jovem escritora;

2- Colocar uma casa como personagem não é algo novo. Mas o trato dado por Layla supera tudo o que já foi feito/escrito por aí. É que, em Cupim, a casa não é propriamente assombrada: ela é, como as protagonistas, também muito ressentida e reage a isso. Curioso notar que, no fim de todas as coisas, a casa se coloca como partícipe e aliada dessas mulheres tão aviltadas;

3 O livro é capitulado como um romance de horror feminista, compondo as fileiras do interessante movimento “female rage”. Não se trata de um terror do arquétipo sangue-suspense-susto, mas algo que remete a um folclore de vilarejo, íntimo e familiar. A narrativa trespassa condições de gênero e sociais e é concluída de forma esmagadora.