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Cronista aposentado

05/07/2025 Vicente Cascione
Cronista aposentado | Jornal da Orla

Levou alguns meses para o INSS confessar, publicamente, o meu direito. Mandaram-me um papelucho repleto de letras e números, e nada mais.

Nem uma palavra comovida. Nem uma frase consoladora. Nem uma mensagem piedosa. Os governos são ríspidos. As instituições, insensíveis. Os burocratas, embrutecidos.

Depois de gastarem tanto tempo para descobrir que eu ainda não morri definitivamente e trago sobre os ombros o fardo de uma inexorável antiguidade, mandaram-me uma rústica “carta de concessão” com a qual me informam que já não sou apenas um velho advogado, um cronista idoso, e o professor decano na memória e no esquecimento de seus alunos.

Disseram eles: “Comunicamos que lhe foi concedido (SIC) aposentadoria por idade, requerido(SIC) em 28/01/2008”.

Como percebe o amável leitor, antes de tudo existe uma teimosia rotineira na escolha de um ou outro semi-analfabeto para falar em nome do Governo. “A aposentadoria foi requerido e concedido!”

Há muito tempo ando com minha paciência “esgotado”, e de saco “cheia” diante de tanta burrice “oficializado”. Nunca na história “desta” País agente “vimos” isso.

Não bastasse o trágico Português usado na tosca correspondência arremessada contra os coitados da Previdência Social, o texto da “generosa” carta de concessão revela a deseducação do Estado, autor do solene comunicado institucional.

No documento, nem sequer utilizaram o tratamento de “senhor” ou “vossa senhoria”. O recado é, literalmente, curto e grosso.

Deveriam ter escolhido um velho poeta para ele dizer em versos simples e nostálgicos que o senhor fulano de tal cumpriu o trecho maior de sua existência, e assim, graças à sua teimosia em viver, fez jus ao prêmio da aposentadoria capaz de lhe permitir um farto e merecido repouso.

E não existe um descanso mais benigno e edificante como o de prosseguir, o aposentado, no gesto de arregaçar as mangas e de novo entregar-se, de corpo e alma, ao trabalho.

A aposentadoria por idade deveria ser apenas um título honorífico, uma declaração de mérito, uma reverência da Pátria a alguém vivido e incansável diante de cuja labuta as forças não se esgotam, o corpo se reconforta, e a alma se reveste de imortalidade.

Assim, na carta de concessão, o poeta deveria escrever – sob o timbre do Estado farisaico – que a Nação envergonha-se das esmolas que dá (e que rouba) e que as divindades humanas ganham o pão com o seu suor e teimam em prosseguir até ver-se a última gota desse suor brilhando em seu rosto. Ela se une à lágrima derradeira e, ambas, formam o rio e o mar que se encontram muito além da eternidade.

O trabalho é a vida – deveria dizer o poeta desburocrático e humano, ao anunciar a aposentadoria ao homem velho renascido de morrer lutando e deixando rastros tintos de sangue na trilha por onde seguirão as gerações fertilizadas com esse exemplo, sempre renovadas pela perenidade do labor humano.

Mas não deveria haver aposentadoria por idade para quem acumulou preguiças, indolências, apatias e ócios, e apenas se pôs a correr a favor do tempo e do vento, na direção de lugar algum.

O poeta – reverso da insensibilidade grosseira de um INSS quase inerte e aposentado por invalidez ou corrupção – escreveria o poema sobre o aposentado por idade com todas as verdades suaves e amargas de sua trajetória, de seu trabalho, e de sua vida.

A carta de concessão seria, então, uma certidão do valor humano, e não apenas o produto banal e fisiológico com que a constipada burocracia, lentamente esvazia suas vísceras e suas entranhas.