
Começo a escrever ao som de uma melodia desconhecida, comovente e inesperada invasora de minha alma mansa e submissa. Estou de costas para a tela da TV e não vejo a imagem provinda do DVD que acabei de colocar neste início de madrugada.
Repetidamente escrevo nas horas tardias quando os homens bons estão adormecidos e embalados pela quietude do silêncio, esse silêncio capaz de tornar-se estridente e tormentoso para os insones repletos de medos, desesperanças e trágicos pensamentos.
A música inicial já se desfez, mas permaneço atento e vou seguindo, as melodias sucessivas; ainda não voltei meu rosto para ver a tela e o cenário apenas imaginário de um pianista, seu piano, e uma orquestra.
Junto ao teclado onde estou a redigir, tomo nas mãos a capa do DVD para ler o nome da primeira canção. Então, o pianista me recebe com um sorriso cordial na imóvel fotografia onde eu o vejo; desgraçadamente, sinto um vago sentimento de culpa por nunca ter ouvido a menção de seu nome, nem de jamais ter visto sua imagem.
Subitamente, surpreendo-me ao descobrir o título da música do início deste texto; ela tem o meu próprio nome grafado em inglês: Vincent.
Fico a imaginar quem terá sido esse sujeito capaz de inspirar tão suave melodia. Talvez fosse alguém da Nova Inglaterra, ou quem sabe de Canterburry, lugares possíveis para o nascimento de algum Vicent; ou seria ele um improvável holandês de Zundert, ímpar, distinto, imortal.
Com o controle remoto, retorno à primeira canção do DVD. Nesse reencontro comove-me um pouco mais ouvir a música triste através da qual minha imaginação procurou Vincent, inutilmente.
Adensa-se a bruma do tempo, chegam trevas, e tudo é invisível. Ouço apenas o som no qual Vincent esconde-se de mim como contraste de minha alma, oposto de meu ser, avesso de minha vida, reverso do espelho onde não me vejo, nem me encontro.
Talvez Vincent seja apenas um singelo anjo criança; um cão pequenino de olhos tristes; a última flor da derradeira primavera por onde se esvai a eternidade; um velho negro sobrevivente de uma vida ferida de morte; o nome falso de um escritor extinto ou o de um pintor enlouquecido pela retina inundada com as cores derramadas de pincéis saciados e exaustos sobre telas virgens. Ou talvez Vincent não seja ninguém.
Estou a terminar o texto, mas antes volto o meu olhar para o vídeo onde o velho pianista toca em meu coração a canção My Way (Meu caminho).
Ele parece conhecer a narrativa da existência humana. Imagino ser My Way a história da vida de um Vincent desconhecido e pungente que fez o seu caminho do seu jeito; como eu fiz o meu, à minha maneira.



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