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Carta a um espião

23/08/2025 Vicente Cascione
Carta a um espião | Jornal da Orla

Nesta semana, no chat de um programa, um seguidor lancou-me uma pergunta: – “Cascione, qual é o seu verdadeiro nome?Jápercorri os cartórios e fui à OAB e ninguém informou”.

Caro espectador: vossa senhoria pôs o dedo na ferida. Eu simplesmente não existo. Sou uma entidade etérea ou infernal e, portanto,sem registro oficial.

Não adianta, distinto e diligente espião, percorrer todos os arquivos do mundo em busca de minha identidade e dos rastros de minha passagem nesta vida pois mesmo se eles tivessem existido, o nome das pessoas de carne e osso acaba sendo substituído pelos números das pulseirinhas dos berçários, do RG, do CPF, do Certificado de Reservista, do Título de Eleitor, do cartão de crédito, da conta bancária, do passaporte, da inscricão profissional, afinal as criaturas humanas são todas numeradas.

Ninguém lhe dará uma informacão ou uma certidão, em meu nome, porque tenho somente um velho codinome, um apelido completo com origem imaginária desde tempos imemoriais.

É o momento de fazer uma breve confissão a V. Sa.: a OAB nada pode dizer sobre mim, afinal finjo ser um advogado há exatos 60anos, um antigo impostor profissional. Mantenho, é verdade, numa velha moldura pendurada na parede, para enganar a clientela, a relíquia de um falso diploma onde inscrevi o codinome adotado de uma também inverídica certidão de nascimento, a partir da qual simulei meu desembarque neste mundo de Deus.

Escolhi, ao acaso, um postico Cascione como sobrenome, atribuído a ancestrais inexistentes cuja origem eu decidi ser proveniente de uma milenar região da Itália confinada em aldeias de Molise.

Ali criei também o De Rosario, uma gente turrona ou cabeca dura,denominada no idioma italiano como “testarda”. Por outro lado, das terras de Trás-os-Montes, onde a teimosia também é típica de habitantes de algumas aldeias portuguesas, fui buscar o Fernandes, escolhido à toa como um codinome vindo do lado paterno de minha hipotética mãe, ao qual se junta um aleatório Saraiva, de minha imaginária avó.

Na simulação de minha ascendência ainda consta um inventado Calvi, dessa inexistente avó materna; e com inspiração nos não menos teimosos espanhóis, há um Escudero, outro sobrenome do avô materno que também nunca tive.

Como vê, meu prezado seguidor espião, não sou encontrável em parte alguma, afinal, esse Vicente Fernandes Cascione é um E.T., um alien disfarçado, um gremlin imperceptível, um pluft de paletó e gravata, uma alma penada, e tudo isso escapa aos registros e arquivos onde se aprisionam vidas, identidades e carcaças dos seres humanos.

Estimado investigador obstinado, ao invés de andar à cata de eventuais protestos em cartório e de condenações forenses para tentar estigmatizar a mim que, com dedos do outro mundo digito teimosamente estas sexagenárias crônicas dominicais, V. Sa. faria um bem à sua alma gentil se olhasse os lírios do campo e o “mar, belo mar selvagem,de nossas praias solitárias”, ou até mesmo as abundantes formas de carne e osso nas telas das TVs e nas plataformas digitais.

Sem mais, atenciosamente, Vicente Fernandes Cascione.