
Todos os dias vou à cafeteria. O café é o mesmo, a bartender não. E não posso chamá-la assim, sua inexperiência em tirar uma bebida cremosa é visível. Quando peço então um expresso 3/4, olha-me espantada, coça a cabeça, e tenho que, com os dedos, mostrar a quantidade desejada. Emparelho os quatro dedos e separo um para demonstrar que não é um café curto nem um que complete a xícara.
Invariavelmente percebo que não faz ideia do que representam 3/4.
Não me espanta que seja assim. Outro dia vi um post em que perguntaram a jovens na rua o nome de um estado brasileiro começando com a letra A. As respostas foram inusitadas, as expressões faciais também, e as respostas sempre constrangedoras. Houve quem respondesse “África”.
Na cafeteria, a funcionária mais antiga, de uns 40 anos, estava revoltada com tanta mudança de jovens colegas, o que atribui ao excesso de benefícios sociais que levam à acomodação de parte da população. Muitos jovens acabam preferindo jeitos alternativos a um emprego formal atrás de um balcão.
Lembrei que o drama não é só aqui. Há dois anos, encontrava-me em Coimbra. Numa noite, jovens reuniam-se na praça para assistir, aos goles, por um telão, a uma partida de futebol.
No fundo da praça, um outdoor de campanha eleitoral criticava o fenômeno nem-nem em Portugal. No Brasil são mais de 10 milhões de jovens que não estudam nem trabalham. O dono da cafeteria sofre com tanta mudança, eu sofro com cafés curtos demais. O PIB nacional sofre também. Especialistas alertam que a queda na força de trabalho representará uma perda de 10 por cento no PIB nacional em 30 anos.
A situação me entristece. É a nossa falência o que oferecemos ao mundo com as novas gerações. É o nosso fracasso em formar essa gente.
A começar pelas escolas, muito chatas, convenhamos. Enfiamos goela abaixo conteúdos que jamais utilizaremos, pouco se ensina a pensar,
pouco se educa para conviver, menos ainda se estimula a sonhar.
E as redes sociais ainda vêm para atrapalhar ainda mais. Sinto inveja de como crescem as crianças em alguns países nórdicos e orientais.
O estudo não atrai, trabalhar menos ainda. Tenho a sensação de que muitos pensam que vieram na vida a passeio, não se encaixam no mercado de trabalho por má-formação ou se sentem inseguros para obter sucesso.
Acabo de tomar um cafezinho pensando na frequente falta de rigor, seja em casa, na escola ou na gestão pública. Alguém lembrará: a formação requer disciplina. E a ternura? O efeito nem-nem, no fundo, deriva de uma ideologia maniqueista. Há quem defenda o rigor, há quem insista na ternura. Não podemos conciliar? Vivemos um extremismo que culmina na violência, na punição que ceifa vidas, na desmotivação, na revolta, na infelicidade de muitos, frequentemente devastados nas periferias de majestosas cidades.
Dar vida não é simplesmente gerar, um ser é moldado ao longo do existir. É uma escultura, que começa com um bloco de barro para se definir e aprimorar. E nós, que já estamos aqui, somos os artistas. Com habilidade, sensibilidade e esforço, podemos fazer uma obra-prima. Ou um triste torrão de barro a enlamear a esperança.
Peço mais um café, este já melhor preparado. Quem sabe um dia o café faça jus à ideia de comunhão, regado a rigor e ternura.



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