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Atrás da porta

19/07/2025 Vicente Cascione
Atrás da porta | Jornal da Orla

A vida é um mistério e não consegui desvendá-lo. As pessoas nascem sem ter a lembrança do seu momento original, não se recordam de terem dado consentimento para receber o corpo e a alma com os quais vieram ao mundo, e só acabam por descobrirem-se vivas num momento preciso da existência.

Depois elas lutam desesperadamente para continuar vivendo, e essa ânsia irrefreável conduz à ideia da imortalidade; e assim, na projeção desse instinto, as pessoas vislumbram sobreviver após a morte.

A batalha pela vida não depende de haver felicidade e do bem a ser alcançado ao longo do caminho, nem dos objetivos a serem atingidos, das realizações desejadas, das frustrações sobrevindas a cada passo.

Vive-se! Quem nos guia é a esperança, esse sentimento apontado para o inatingível mostrando-nos a felicidade: “essa árvore milagrosa toda arreada de dourados pomos que está sempre apenas onde a pomos, e nunca a pomos onde nós estamos”, como disse o poeta.

A esperança pode iludir-nos no sentido da realização do impossível e, muitas vezes, leva-nos ao desengano.

Muita gente acredita em suas esperanças com uma fé tão imensa que toda a irrealidade futura parece estar ali, logo além da porta entreaberta, transponível ao menor passo.

Então, cumpre-se a vida caminhando para o futuro sem perceber, muitas vezes, que ele é apenas a efêmera linha do horizonte na direção da qual seguimos, mas que foge sempre para adiante de nosso olhar, renovada em seu perfil, modificada em sua imagem, no traço longínquo do oceano, além da crista das cordilheiras, no risco horizontal dos desertos, mas inatingível, mesmo que a caminhada seja eterna.

Municiadas com suas esperanças as pessoas abatem moinhos de vento, vencem dragões, enfrentam tempestades, trabalham a cada dia, sonham e despertam, renovam outros sonhos, e seguem em busca da felicidade absoluta, do bem supremo e da paz infinita, sem perceber que a cada conquista, a cada encontro, a cada semeadura e colheita, essa felicidade absoluta, esse bem supremo, e essa paz infinita estão muito adiante da luta pela vida, bem além da linha do horizonte, e mais longínquos do ponto infinito.

A felicidade conseguida em momentos intermitentes, o bem às vezes vindo às nossas mãos, e a paz confortadora e temporária, estes sim podem ser alcançados, mas têm o preço de deixarmos, em cada um desses instantes, pedaços de nossas esperanças, retalhos de nossas expectativas, restos de nossos sonhos.

“Quando partimos, no frescor dos anos” – disse o poeta – “as esperanças vão conosco à frente e os desenganos vão ficando atrás”. Mais tarde, percorrido o trecho marcado do caminho, “os desenganos vão conosco à frente e as esperanças vão ficando atrás”.