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As cabras e o aroma do mundo

12/07/2025 Luiz Dias Guimarães
As cabras e o aroma do mundo | Jornal da Orla

Às vezes penso o que seria do mundo sem o café, e agradeço às cabras. Tudo começou quando lá pelo século VI as cabras ficaram animadas por comerem frutinhas nas terras da Etiópia. E, diz a lenda, um pastor resolveu experimentar. Levou aos monges, que um dia cederam ao aroma dos grãos jogados à fogueira.

Há muitas versões para a história do produto que desde então, se não salva o mundo, conexa as pessoas e por vezes desarma o espírito, quem sabe até guerras. Pois, como resistir a um café quentinho que extrapolou a xícara e virou sinônimo de reunião, de amizade, de restaurante e de alimentação, ainda que não faça parte do cardápio?

Ah, quantas coisas se resolveram num café, num encontro de negócios, de amores, ou de desentendimentos, característica da relação humana! Há um miraculoso efeito naquela fumaça que inebria amigos e evapora rancores. “Vamos tomar um café!”, é o brado de quem busca a conciliação.

O dia só começa com o café, ainda que a manhã não contemple um arábica em qualquer lugar do mundo. Na Finlândia com certeza. O país, tido reiteradamente como o mais feliz, é o que lidera o consumo per capita mundial: 12 quilos por ano!

Da Etiópia migrou para a Arábia, da Arábia à Turquia, onde consta ter sido instalada a primeira cafeteria do planeta, Kiva Han, em 1475. De lá para cá o café conquistou a Europa, começando por Veneza, nos séculos XVI e XVII. Sim, os árabes, que gostam de comércio e para isso é fundamental tomar um café com o comprador, conquistaram os europeus. E estes trouxeram a iguaria para as Américas Central e do Sul.

Até que um oficial português, Francisco Mello Palheta, levou mudas de café da Guiana Francesa para o Pará. Foi o que bastou para conquistar o Brasil, há tempos o maior produtor e exportador do grão, responsável por 38 por cento da produção global.

O Brasil é o que é graças ao “ouro verde”, que por vezes disputou em valor até com o petróleo. Minas saiu da era das pedras preciosas para a era do café, São Paulo criou sua economia graças a ele. Trago na minha ancestralidade a riqueza do café produzido no interior, arruinada em 1929 com a crise das bolsas.

No estertor do século XIX e começo do XX era a promessa de futuro de um país que ainda não adentrara na era industrial. Santos deixava de ser um simples porto para desaguar o produto e vivia seu apogeu. O que somos, ainda hoje, devemos ao café. É o mais marcante traço do nosso DNA. O porto começou a se tornar o mais importante do Hemisfério Sul graças às milhares de sacas que, com suor e determinação, ombros rijos embarcavam em fila para a humanidade levantar da cama e se congraçar nas mesas do mundo.

É tão mágica iguaria que invadiu o ânimo, impulsionou a disposição e inspirou a poesia, a ponto de Richard Bach produzir a Cantata do Café, em 1732. E quando algo, como o amor, inspira a música, é a alma que toca com harmonia.

O café só não consta na Bíblia porque as cabras ainda não haviam devorado as frutinhas nas montanhas da Etiópia. Mas seus ensinamentos foram consumidos pelos monges que faziam vigília madrugadas adentro.

Penso no poder e importância do produto ao me deparar com a 10ª. edição do Festival Santos Café, o mais importante com o tema, a se realizar de 11 a 13 deste julho, na cidade. É mais que uma festa que reúne multidões no Centro Histórico que teve seu fulgor graças ao grão. E o mundo deve a ele uma reverência.

Hoje o café, sinônimo de encontro, diversificou na sua apresentação, a ponto de custar mais caro que muitos vinhos renomados. São os cafés especiais produzidos a partir de grãos expelidos por elefantes, civetas e jacus.

Nunca os provei. Contento-me com algumas xícaras diárias de um bom expresso, como tanta gente que vivencia o poder mágico da conciliação. Gostaria que nos tempos atuais alguns estadistas, ao invés de se reunirem em conclaves mundiais, sentassem-se à mesa de um bar para um escaldante café. Certamente apaziguariam o espírito e não mais declarariam guerra.