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Armênio

07/06/2025 Vicente Cascione
Armênio | Jornal da Orla

Talvez um dia eu passe ali, na Freguesia imaginada, teimosa aldeia de nome escondido, como muitas, de onde muitos saíram com a coragem de arrancar os pés fincados na terra para navegar e atravessar imensas distâncias do além-mar, loucos ou sonhadores, sobreviventes de si mesmos, capazes do impossível, biógrafos a escrever sua própria história com a tinta indelével de seu sangue, suor e lágrimas derramados por esperanças e saudades.

Talvez um dia eu passe ali, talvez não. Mas, conheço alguém, teimoso peregrino dessa aldeia. É, antes de tudo, um campeador, que dá a essa palavra o seu exato sentido. Não lhe devo nada e ele nada me deve, o que faz deste meu texto um gesto de afeto, e nada mais.

Certa vez, no ano de 2004, esse velho camarada, atendendo a um apelo meu, extraviou-se comigo numa seara árida, amarga e sua desconhecida e, ele e eu, Quixote e Sancho, apeados da montaria, arriscamos construir uma realidade não assentada no espumoso alicerce de palavras e promessas vãs feitas em panfletos enganosos e folhetins de campanha, nem tampouco edificada no horário da TV – onde é comum o abstracionismo vulgar de pichadores levianos, maledicentes de todos os tipos, cada um deles impulsionado por seus íntimos motivos, desde os de origem em torpes sentimentos, até os de natureza predatória nascidos de um gratuito e apequenado gesto de falar mal, por falar mal.

Esse velho camarada com suas mãos calejadas de menino oleiro da pobre Freguesia onde talvez nem dobrem os humildes sinos de sua aldeia, aportou numa cidade bordada em rendas de espuma onde o mar se desfaz na orla de suas praias.

Nesta cidade, onde ainda resistiam algumas memórias de sua pujança de outrora, meu velho camarada – com as mesmas mãos voluntariosas e o coração pleno de saudades, sonhos, dores e esperanças, com sua mente dotada de aguda inteligência, com seus olhos que enxergam além dos horizontes e dos infinitos, com a força de vontade e a coragem própria dos que imigram e se fragmentam entre os momentos de partir e de chegar, na viagem entre o sempre e o nunca mais – meu velho camarada, eu dizia, edificou um mundo real como contraponto ao abismo de tempo onde a estagnação do futuro estava cada vez mais distante do passado.

Ele tinha projetos e planos não apenas virtuais ou de propaganda num momento eleitoral, afinal, já mostrara aos homens de boa fé, a sua obra, e o improvável que era e foi capaz de realizar.

Perdemo-nos, ele e eu, na seara da rejeição e da recusa do povo no exercício da “voz de um deus” com a qual a insensatez já fez suas proclamações em tantas vezes.

À vista do naufrágio, ele me disse: “O barco vai ao fundo por minha causa. Ponhas outro no meu lugar”. Meu coração não lhe deu outra resposta, senão essa: – “Você aceitou meu pedido e entrou no barco. Naufragaremos juntos”. Quanto lhe deve esta Cidade! Quantos lhe devem nesta Cidade! Sou um homem de reconhecimento e gratidão. Tenho calado esse preito há muito tempo.

Faço-lhe essa homenagem, da qual ele não precisa, pois são generosos os construtores de sonho, os edificadores da realidade que o velho menino oleiro de sua aldeia aprendeu desde cedo a criar com suas próprias mãos. Comovido, eu te saúdo menino de Chão de Couce, meu velho amigo Armênio. Meu coração menino, oleiro de tantas crônicas, escreveu este texto, com respeito e com afeto.