
Havia uma letargia típica das manhãs de domingo. O séquito de campeões já havia se dissipado no fundo da avenida. Um vácuo prenunciava que logo seríamos invadidos pela horda de fumegantes carros querendo recuperar o tempo em que se detiveram à espera do fim da maratona.
Mas em vão. Não havia sinal algum de que a prova terminara e o espaço seria retomado pelos sedentários grudados aos volantes. Intrigava a espera. Até que foi surgindo uma senhorinha, pequena silhueta inclinada para a frente, cujo suor contrastava com o ritmo dos seus passos.
Providencial e cauteloso, o motorista da ambulância acompanhava em marcha lenta a solitária atleta perdida de seu bando. Estaria passando mal, de tão ofegante, ou humilhada com seu fracasso?
A turma do trânsito e segurança acompanhava pacientemente a senhora. Havia por ela respeitosa espera. O espírito esportivo estava presente. Não por ser direito dela que pagou a inscrição, mas havia uma abnegada espera para ela determinar seu próprio tempo, o que comprometia o previsto pela organização.
É como se fizessem um tributo àquela mulher quase resgatada, mas não fracassada. Talvez fracassados se sentissem os que, no pelotão da frente, gabolas da performance praticada o ano todo, não galgaram ao podium por mera fração. Alguns certamente estavam a essa altura suando ofegantes com a decepção.
A senhorinha não. Já vivera o suficiente para saber aprender com o fracasso. Essa mulherzinha estava a ponto de alcançar seu próprio podium da determinação por estar na pista e resistir ao longo percurso. E por isso não parecia incomodada em provocar tanta espera.
Havia no ar daquela avenida olhares complacentes e admirados diante da atleta de fim de semana, que certamente nunca se cansara em tantas décadas ao movimentar suas pernas, agora frágeis, na rotina de uma vida que lhe ensinara a vitória em um aparente fracasso.
Não, não era uma atleta fracassada. Fracassado é quem não aprende com o momentâneo sucesso e, inebriado, espera sempre mais. O sucesso não impõe limites. E é a derrota rico ensinamento, asfalto seguro para o que ainda há de vir.
A raiva de quem esperou ao volante logo se dissipa. Mas a admiração e o respeito não, e requerem muito mais. Quem acompanhou a velinha, aplaudiu por seu esforço e invejou sua determinação. Certamente dela se lembrará e contará a todos como uma lição de vida, enquanto a senhorinha, orgulhosa por haver concluído o percurso, estará brindando, num copo de leite, com seus filhos e netos, orgulhosa da conquista, ainda que tenha sido, de longe, a última a chegar.



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