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A vida na velocidade 2x do WhatsApp

12/04/2025 Paulo Schiff
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A cena é cada vez mais comum: na quinta-feira, 9/4, uma mulher pedalava na pista esquerda da Avenida Ana Costa, em Santos, sentido praia-centro, com uma das mãos no guidão e a outra digitando no celular. Ela serpenteava pela pista, pouco antes das 9 da manhã, no meio do trânsito intenso de um trecho entre a Rua Tolentino Filgueiras e a Avenida Francisco Glicério. O comportamento é de risco de vida para ela e para os outros.

Uma perícia policial nesta semana mostrou que uma motorista argentina que atropelou um casal de brasileiros em janeiro, em Buenos Aires, estava manipulando o celular no momento do acidente. O homem morreu e a mulher teve fraturas múltiplas.

O termo fast food traduz essa pressa: comida rápida. As duas horas de almoço no intervalo do trabalho se tornaram um desperdício de tempo do século passado. Foram reduzidas a uma e em muitos casos, a meia-hora. E nessa meia-hora, muita gente intercala as garfadas com digitadas, leitura de mensagens, assistência de vídeos. Engole a comida rápida. Risco pra saúde: mastigação sem concentração e alimentos quase sempre regados a sódio e recheados de gorduras.

Você ouve recados no celular acelerando a velocidade da voz de quem mandou a mensagem? Tem opções: 1,5 e 2 vezes mais rápida. Se você não usa esse recurso do WhatsApp, com certeza conhece muitas pessoas que usam.
Esse procedimento completa os sintomas de uma epidemia batizada como aceleração social do tempo pelo alemão Hartmund Rosa.

O usuário ganha alguns segundos. Talvez até alguns minutinhos. Perde muito mais. Perde a entonação com que o recado foi gravado. Perde a pessoalidade impressa nele pelo outro. Perde o sentido que a ênfase carimba nas frases. Perde “o clima”. Lógico que isso é muito mais marcado numa mensagem pessoal do que numa conversa de trabalho, profissional.

A leitura das informações também é rápida: os acelerados – 43% dos brasileiros, na pesquisa já desatualizada, do DataFolha no ano passado – conseguem ler só os títulos das reportagens e entrevistas. Risco de informação rasa, opinião não-fundamentada, aprisionamento em bolhas.

A aceleração é instalada no modo autômato: a pessoa internaliza, nem percebe. Mesmo porque essa vida na velocidade 2X do WhatsApp, afeta a atenção, reduz drasticamente a consciência, elimina a decantação das sensações e percepções.

O saldo é um mergulho na ansiedade e uma cachoeira de cortisol no sangue, o hormônio do estresse. O pior: muitas vezes a direção desse mergulho é para o fundo do poço: a depressão.

Se você conseguiu ler essa crônica toda, parabéns: ainda não foi contaminado por esse vírus, ainda não é vítima da epidemia de aceleração social do tempo.