
Sofro o inconformismo das separações, não apenas das pessoas afastadas pelos desencontros da vida e da morte. Também sinto a ausência de objetos inanimados que compuseram momentos íntimos de minha existência.
Não escondo meus defeitos de temperamento e os aspectos duros de minha personalidade e, por isso, o círculo onde adentram os destinatários de meus afetos não é ilimitado.
Como se minha vida fosse um palco onde desfilou um elenco de incontáveis personagens, por ele passaram simples figurantes, protagonistas anônimos, extras de uma multidão sem face, criaturas despercebidas, e acho que isso acontece na vida de todos nós.
Com muitas pessoas a convivência existiu, e se desfez. E talvez fosse melhor não ter existido em razão da aridez do relacionamento, desilusões, desapontamentos, desenganos, traições, intolerância, incompreensão e desamor.
Esses atores de momentos inúteis recebem minha inevitável indiferença nos poucos espaços desertos de minha pobre alma, incapaz, no entanto, de ódios e rancores.
Os esquecimentos são tão naturais quanto as saudades. Não há como negar. Mas, enquanto os esquecimentos ficam à margem da vida, as saudades e sentimentos de amor permanecem, e acabam se confundindo com a própria existência resumida na inevitável dimensão da alegria e da dor.
A busca da felicidade é um esforço permanente para manter hermético o círculo dos afetos verdadeiros, sem fundi-lo com o universo mais amplo onde habitam meus sentimentos efêmeros, indiferenças e espaços vazios.
Diante de você, velha cadeira companheira desde os tempos da casa onde nasci, estes pensamentos me ocorrem. Em seus braços de madeira antiga, em suas cicatrizes deixadas pelo tempo, vejo sinais de fidelidade e paciência – velha amiga – que a limitação humana pensa tratar-se de um objeto sem vida.
Nos primeiros passos de minha existência, apoiei-me nos braços dessa cadeira que, mais tarde, também ampararam as mãos pequeninas de meus filhos, mas sobretudo onde pousaram antes, descansadamente, as vigorosas e depois frágeis mãos de meu pai.
Ela foi seu refúgio, quando ele se perdia em pensamentos não adivinhados, olhos fechados, cochilando, talvez, fingindo dormir, quem sabe?
Ali está imóvel, diante de mim, a cadeira onde viajei em meus sonhos de criança, e onde, com minha imaginação infantil, fui comandante de tantos aviões e motorista dos caminhões que nunca tive.
A velha e querida cadeira faz parte dessas coisas amigas, misteriosamente vivas, que tornam mais doces, ou talvez mais sentidas as dores de todas as ausências, das longínquas distâncias de um tempo sem volta, e de todas as minhas saudades.



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