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A têmpera dos desiguais

26/07/2025 Vicente Cascione
A têmpera dos desiguais | Jornal da Orla

“Todos os homens nascem iguais”. Desde os meus primórdios, percebi que essa proverbial igualdade ocorre somente na fisiologia do parto; todos nascem iguais: nus.

Depois disso, a vã filosofia mente quando não aponta a diferença entre um centro cirúrgico e uma viatura da PM.

Nasci num hospital sob os cuidados de uma piedosa parteira e do Dr. Valim. Mas, já naquelas priscas eras, havia mulheres parindo seu filho nas mãos de um soldado Raimundo.

O velho Millôr, açoitava: “Todos os homens nascem livres e iguais. Depois é que são elas”. A nudez precisa cobrir-se e a partir daí começa a definir-se o enxoval da vida. Até mesmo a roupa pode ser um estigma para quem é chamado de mauricinho por vestir calça e paletó inacessíveis a seus detratores. Mas muitos desses maldizentes, serão mais tarde, os figurões engravatados já esquecidos dos tempos de suas vacas magras.

A roupa pode fazer ou desfazer a imagem virtual de cada pessoa. O trapaceiro parece um príncipe azul quando revestido pela embalagem do black-tie.

Certa manhã, saltei da cama e persegui um ladrão pelas ruas do bairro. Ele usava vistosas marcas esportivas, como se fosse um atleta em quadras da NBA. Eu parecia (e talvez fosse) um pé de chinelo. Quando encurralei o bandido com um argumento de grosso calibre, dois super heróis de plantão voaram sobre mim. Para eles, pelas minhas trágicas aparências, o bandido era eu.

Desfeito o equívoco, reconhecida a verdadeira identidade do pé de chinelo, e preso o ladrão, ouvi a confissão dos super-heróis:

-“Pôôô, Doutor, com essa roupa eu nunca poderia imaginar que era o senhor”.

Quando rapaz, nem eu tinha certeza sobre se minha mente e meu coração mudavam conforme as roupas vestidas por mim. O hábito pode não fazer o monge, mas a toga, a farda, o terno e os paramentos são embalagens capazes de valorizar os produtos no varejo das relações humanas, mesmo se os seus conteúdos não prestam.

Já não uso paletó e gravata como antigamente; não me sinto menor, nem ninguém me reduz. E vejo, com naturalidade, os convertidos a paletós e às griffes que antes essas raposas não alcançavam porque os trajes estavam verdes, como as uvas. Assim é a vida, descortinada pelas fabulosas verdades de Esopo. E de La Fontaine.

Na adolescência, conheci episódios amargos pelo estigma decorrente das desigualdades inevitáveis nos tempos de colégio, como quando o meu uniforme não acompanhava o meu crescimento físico e, como era difícil comprar um novo, minha mãe desfazia as bainhas para a calça ficar mais comprida e encobrir meus tornozelos. No entanto, eu seguia crescendo e não tinha jeito: as canelas iam ficando sempre mais expostas.

Então, a molecada, ao sair em bando para pegar os bondes, no final das aulas, apontava a faixa mais escura em minha calça desbotada pelo uso. Era a parte do tecido oculto na costura da bainha, antes de ela ser desfeita. Assim, fiz parte do grupo submetido à zombaria dos alunos revestidos de seus uniformes impecáveis a exibir-se e a fazer rir, à nossa custa, algumas impiedosas meninas do Liceu Feminino, do Coração de Maria e do Colégio São José.

Com as pernas das calças mais curtas, éramos chamados de pescadores-de-siri, no grito debochado de nossos “fraternos” companheiros vestidos com suas calças de medidas e cores exatas.

Moral da história: é preciso aprender, desde cedo, que alguns nobres princípios proclamados e ensinados por aí quase nunca chegam à dura realidade das ruas, onde vidas são formadas ou mutiladas conforme a têmpera com que se forja o caráter dos desiguais.