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A arte e o palavrão

16/08/2025 Vicente Cascione
A arte e o palavrão | Jornal da Orla

Já me encontro quase no limiar do tempo silente. Ouvi muito da sonoridade da vida. Vozes, palavras, gemidos, risos, melodias, silêncios e gritos sobrevivem no aconchego de minha alma e ecoam em minha memória. Alegro-me ou me entristeço com esses sons provindos do ontem ou sobrevindos do hoje e eles me divertem ou me comovem segundo o tempo e o lugar em que eles me tocaram o sentimento e dentro do qual eles repousam e me enternecem.

Recebi a graça de amar a música em sua universalidade de sons, gêneros e ritmos, sem importar qual a sua origem, afinal, a melodia provém da sublimação da alma humana, assim como a criação de seus versos, mesmo quando as palavras escondem-se na aparente falta de sentido de um idioma sem tradução.

O coração bate num litúrgico instrumento de percussão; o espírito chora em torrente de lágrimas libertas pelas cordas de pianos, violões, violinos, violoncelos e harpas; e a alma grita estridente ou pranteia quando ouve o sopro dos metais.

A poesia flutua na música, a música navega em versos, ou ambos se fundem na chama da inspiração perfeita.

Mas certas letras são uma poética melodia de palavras e ela não precisa de acordes e harmonias, como tampouco nenhuma palavra pode fazer mais bela, em seu esplendor, uma sublime melodia solitária e absoluta.

Em minha tosca e primitiva sensibilidade não imagino o Nessum Dorma unicamente instrumental, descarnado do milagre dessa explosão vulcânica do peito de um Luciano Pavarotti no clímax impossível de seu “Vincerò!”

Também sinto serem imprescindíveis os versos do imenso Paul Anka na canção My Away de Claude François, cantada com o timbre de Deus na voz de Frank Sinatra. Ali está a força telúrica da palavra expressando (“And now, the end is near”) a caminhada de um homem que confessa, em seu crepúsculo, ter vivido a vida em toda a plenitude: “E eu fiz do meu jeito”: “I did it my way”.

Mas ninguém me acrescente uma vogal vulgar, nenhum ruído verbal ao “Intermezzo”, da Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni. Música indefinível numa eloquente ausência de palavras, melodia de imagem irreal materializada apenas na face desesperada de Dom Corleone – Al Pacino – num terrível silêncio seguido de incontido grito diante de sua “bambina” morta na escadaria do velho Teatro de Messina.

Francis Ford Copolla, nas cenas finais de O Poderoso Chefão 3 pôde acrescentar o silêncio e o grito ao Intermezzo, sem ousar uma única palavra.

Atravessei a vida embriagado pelas artes. Arte veraz, capaz de fazer brotar o arrepio e a lágrima, e de embargar a voz pelo silêncio ou pelo choro, e de me extrair das entranhas um palavrão necessário e inevitável, um soco de entusiasmo, e de deflagrar os aplausos de minhas mãos às vezes tão insuficientes quanto o meu grito.

Pequenos versos, trechos musicais, traços de tinta sublimando cores, sambas de gente dotada de grandiosa simplicidade e imensa filosofia, poetas e compositores extraordinários, deuses quase humanos talhando e dando vida ao mármore bruto, homens escrevendo muito além de palavras comuns e usuais, e redigindo textos perenes na memória dos povos, todos criadores da arte, da arte verídica, sublime, capaz de derreter sentimentos glaciais, e despedaçar as mais petrificadas emoções.

Lamento dizer-vos, amáveis leitores, que alguns homens antigos, como eu, não têm a exata ideia da pós-modernidade, das fantásticas mudanças, das progressistas evoluções para a desconstrução do passado e edificação do futuro.

Assim sou eu, em minha relativa dissintonia com o tempo dessas “novas artes” capazes de convulsionar multidões, arrastá-las ao êxtase, dobrá-las sobre os joelhos em adoração a certos artistas de um tempo e de um mundo novo; minha estupidez não os alcança.
Minhas mãos imobilizam o aplauso. Minhas lágrimas choram em outras rimas e em outras melodias. O arrepio ficou vagamente nostálgico. E às vezes não falta aquele velho, necessário e inevitável palavrão, como uma vaia íntima.