Pode uma flor neutralizar o lixo? Pode, e como ficou bela aquela flor amarela que, junto com outras de igual matiz, abraçava a lixeira a ponto de esconder o concreto. As flores são mensageiras de que o belo dá esperança contra o entulho da existência.
Um sol tímido de inverno iluminava o límpido céu azul e a pele clara da artista, uma linda menina cujo boné, a distância, seus longos cabelos dourados e sua concentração me impediam de ver o seu rosto.
Mas era sim uma bela menina, indiscutivelmente bela.
Travestida de natureza, gerava margaridas no fundo branco com riscos azuis, raios do céu a dizerem que há um sentido celestial na felicidade.
A menina artista cumpria a tarefa de pintar a lixeira em homenagem à festa Italiana que se aproximava.
Naquele largo da estação de ferro nascida num tempo antigo, as lixeiras são frequentemente repintadas em saudação ao próximo evento.
Esses pequenos recipientes, forjados para acolher os lixos, são coadjuvantes dos festejos da vida.
Artistas são assim.
Mais do que buscar um sentido para a sua existência, buscam transcender sua dimensão através da arte. O poeta Ferreira Gullar entrou na eternidade por toda sua obra, mas teria sido suficiente quando disse: “A arte existe porque a vida não basta”.
E por isso praticava a poesia, como a linda menina de cabelos dourados, em cuja pele dos habilidosos braços ostentava algumas tatuagens.
Mais importante que o valor da harmonia, é o sentido da expressão que prevalece quando, de inúmeras formas, variadas linguagens, extravasam o sentimento. São as maneiras de cada um se tornar maior que sua reles presença no mundo.
Firmam a identidade e expressam às vezes um clamor, uma dor, um assombro ou o encantamento.
Não estou seguro de que fossem margaridas que a jovem começava a fazer brotarem de suas mãos, ou se eram outras flores. Seguro que eram amarelas, bem vivas.
Não quis incomodar a artista com pergunta tão idiota, como se ela devesse entender de botânica para gerar tão lindas flores.
Se eu, naquele momento expusesse meu atrevimento, atrapalharia o fluxo da sua obra. E poderia quebrar o mistério. Afinal, a arte é assim, cada um tem seu próprio entendimento.
E não interessa qual era a imagem vegetal da natureza.
Momentos depois de concluída a obra, me deparei com viçosos limões sicilianos. Não me importei, para mim flores e frutos têm o mesmo efeito de encantamento.
Naquele momento só importava o que aquela pintura irradiava em meu espírito e prendia tanto minha atenção, arrebatado pela beleza que camuflava o lixo. E a menina, linda menina, que tanto se expôs sem revelar-me o seu rosto.



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