
Wim Wenders chega aos 80 anos com uma carreira que atravessa décadas e continentes, deixando um legado inconfundível no cinema mundial. Desde os primeiros filmes nos anos 1970, como Alice nas Cidades e O Amigo Americano, ele demonstrava uma sensibilidade rara para capturar a solidão e os deslocamentos humanos, transformando estradas, cidades e paisagens em personagens de suas histórias.
A colaboração com escritores como Peter Handke ajudou a transformar jornadas físicas em explorações interiores, e a câmera tornou-se a extensão do olhar de Wenders, sempre atenta à luz, à sombra e ao silêncio que contam mais do que palavras.
Foi com Paris, Texas, em 1984, que Wenders atingiu reconhecimento internacional. O filme, que mistura o espírito do western com uma profunda reflexão sobre identidade e pertencimento, recebeu a Palma de Ouro em Cannes e conquistou o BAFTA de Melhor Direção.
A fotografia de Robby Müller e a trilha de Ry Cooder criaram uma melancolia que permanece viva na memória de quem assiste, e curiosamente, muitas cenas foram improvisadas em locações do Texas, o que deu à obra um realismo que nenhum estúdio poderia reproduzir em cenário artificial.
Outro marco de sua carreira foi Asas do Desejo (1987), filme que transformou Berlim em protagonista. Dois anjos observam silenciosamente os habitantes da cidade dividida, e a visão poética do cotidiano transformou o filme em um clássico absoluto. Wenders filmou o longa com Edda Köchl, então sua esposa, e grande parte das cenas envolvia improvisação com os transeuntes das ruas, captando momentos autênticos da Berlim pré-queda do Muro.
A sequência final, com a transformação dos anjos em humanos, é até hoje lembrada como um exemplo de como o cinema pode combinar filosofia, poesia e emoção sem recorrer a artifícios exagerados. Dois anos depois, Wenders trouxe a continuação, Tão Longe, Tão Perto, reforçando sua habilidade de criar universos narrativos que coexistem entre realidade e fantasia.
JAPÃO
O Japão também rendeu obras memoráveis. Em Tokyo-Ga (1985), documentário sobre Yasujirô Ozu, ele mergulhou na vida do mestre japonês, explorando a cidade de Tóquio com a mesma sensibilidade com que Ozu abordava o cotidiano de suas personagens.
Essa afinidade com o cinema japonês voltou em Dias Perfeitos (2023), onde filmou durante 17 dias, explorando a vida de Hirayama, um homem comum que encontra poesia nos pequenos gestos da rotina.
Wenders compartilhou que seu personagem se inspira em Ozu e nos atores Chishû Ryû e Kōji Yakusho, e que muitas cenas surgiram do improviso, capturando a espontaneidade que ele considera essencial para o cinema.
Entre documentários e ficções, Wenders também se destacou com Buena Vista Social Club (1999), registrado pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos como obra culturalmente significativa. A experiência com a música cubana mostrou seu olhar atento à humanidade e à cultura, um traço recorrente em sua filmografia.
Ele experimentou o 3D em Pina (2011), para captar os corpos dos dançarinos de Pina Bausch com volume e profundidade, algo impossível em duas dimensões, e declarou que o 3D não é sobre efeitos, mas sobre intimidade e imersão.
Ao longo da carreira, Wenders dirigiu filmes com todas as suas esposas, incluindo Isabelle Weingarten, Donata Wenders e Lisa Kreuzer, em experiências que variaram de ficções independentes a documentários de música e arte. Ele presidiu os juris de Cannes e Veneza e foi um dos responsáveis por solidificar o cinema europeu como referência internacional.
Sempre defensor da liberdade criativa, prefere produzir seus próprios filmes, mantendo o controle sobre o destino de sua obra, e acredita que o cinema deve ser uma aventura, um meio de descobrir o mundo e, sobretudo, de encontrar novas perspectivas sobre a vida.
A trajetória de Wenders é marcada por atenção à imagem, poesia e narrativa. Suas viagens pelas estradas dos Estados Unidos, suas explorações em Berlim e Tóquio, e o olhar atento para as pequenas histórias do cotidiano revelam um cineasta que transforma o comum em extraordinário.
Ao celebrar seus 80 anos, ele segue filmando, explorando espaços e emoções, mantendo viva a ideia de que o cinema é uma forma única de observar o mundo e contar histórias que tocam a todos de forma universal.


Deixe um comentário