
A tradição de pintar ruas para a Copa do Mundo segue viva na Baixada Santista e, mais do que colorir bairros de verde e amarelo, continua fortalecendo laços entre vizinhos, amigos e diferentes gerações. Em Santos e São Vicente, moradores mantêm o costume de transformar o asfalto em grandes painéis dedicados ao futebol, à cultura brasileira e ao espírito coletivo que acompanha o Mundial.
É o caso da analista de mídias sociais Ana Carolina Machado, de 27 anos, moradora do Embaré, em Santos, e do estudante Victor Faciulli, que vive no Itararé, em São Vicente, mas participa da pintura de uma rua na Vila Valença. Em comum, os dois compartilham o envolvimento com uma tradição que atravessa décadas e mobiliza moradores em torno da paixão pela Seleção Brasileira.
No Embaré, Ana conta que a iniciativa já existia desde a época do irmão mais velho, organizada por antigos moradores da rua. A tradição foi retomada em 2018 por um grupo de amigos e vizinhos que cresceram juntos no bairro. “Isso já acontecia antes aqui na rua, mas desde 2018 nos unimos para continuar essa tradição”, afirma.
Os desenhos ocupam grande parte do asfalto e são planejados coletivamente. Dois integrantes ficam responsáveis pelos esboços, enquanto os demais ajudam na pintura, nos acabamentos e na organização dos materiais. “Dividimos os custos e alguns moradores também ajudam financeiramente. É um trabalho coletivo”, explica Ana.
Entre os elementos pintados neste ano estão referências à identidade santista, como as muretas da orla, navios, o monumento do Emissário Submarino e homenagens ao Santos Futebol Clube, incluindo o número 10 de Pelé.
Para Ana, um dos momentos mais especiais é acompanhar a reação das crianças ao verem a rua ganhando forma. “Os pais passam explicando para os filhos o significado dos desenhos. Isso cria uma expectativa, um clima gostoso de Copa”, diz.
Ela acredita que a tradição também aproxima pessoas que antes quase não conviviam. “Teve gente que apareceu para ajudar, trouxe os filhos, perguntou se ia ter telão para assistir aos jogos. Acabamos criando vínculos”.
Em São Vicente, Victor guarda as primeiras lembranças da tradição na Copa de 2014, quando moradores da Vila Valença se reuniram para decorar a rua com referências à Seleção Brasileira. Desde então, o costume se repete a cada Mundial. “Vivemos a Copa ao máximo. É uma forma de apoiar a seleção mesmo de longe”, conta.

A organização acontece de maneira espontânea. As ideias surgem a partir de referências encontradas na internet ou durante o próprio processo de pintura. “Fazemos no improviso mesmo”, comenta Victor.
Os moradores se dividem ao longo de um ou dois finais de semana antes da abertura da Copa para comprar materiais, desenhar e pintar a rua. Entre os principais desafios estão o tempo, a chuva e a dificuldade de desenhar diretamente no asfalto. “Definir o desenho na rua é trabalhoso porque você não tem a visão total daquilo”, explica.
Neste ano, o grupo optou por utilizar tinta própria para piso, o que ajudou a evitar problemas comuns em edições anteriores. “Nas outras Copas a tinta chegava a escorrer. Dessa vez conseguimos um resultado melhor porque ela seca mais rápido”, afirma Ana.
A mobilização também se estende para além da decoração. Os moradores costumam assistir juntos aos jogos da Seleção Brasileira, improvisando espaços coletivos em garagens e áreas comuns dos prédios. Depois das partidas, a rua volta a ser ocupada por crianças, jovens e adultos jogando bola — uma cena que resgata memórias de infância e reforça o sentimento de comunidade.
Victor acredita que as pinturas representam um símbolo importante da cultura popular brasileira. “As pessoas veem que ali vivem moradores que gostam do clima de Copa e entendem o quanto isso é importante culturalmente”, afirma.
Ele também destaca o poder de união que o futebol desperta durante o Mundial. “A Copa deixa todo mundo mais próximo. Podem torcer para times diferentes, terem diferenças, mas o Brasil acaba unindo todos de alguma forma”.
Mesmo após campanhas frustradas nas últimas edições do torneio, a expectativa pelo hexacampeonato segue viva entre os moradores. Para Ana Carolina, o clima da Copa renova automaticamente a esperança. “Quando começa esse clima de Copa, a gente se ilude de novo. Vê a rua pintada, vê a seleção viajando, e já pensa: agora vai. O hexa é nosso”.
Victor mantém cautela, mas acredita no potencial da equipe brasileira. “Sabemos que não é favorito, que teve problemas durante o ciclo, mas gosto muito desse elenco, que mistura jogadores experientes e jovens com personalidade. Acho que o principal vai ser a entrega. Se todo mundo se dedicar ao máximo pelo Brasil, temos chance de conquistar o título”.

Autorizações
Apesar de ser uma prática tradicional em períodos de Copa do Mundo, a pintura decorativa em vias públicas depende de autorização prévia em algumas cidades da região.
Em São Vicente, a Prefeitura autorizou a realização de pinturas temáticas em ruas com baixo fluxo de veículos, desde que os moradores solicitem permissão com antecedência mínima de dois dias.
Já em Santos, a CET informa que a prática “é proibida pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB), com base nos artigos 81, 82 e 84, que tratam da preservação da sinalização viária e da segurança no trânsito”.
Segundo a companhia, intervenções no asfalto podem comprometer a visibilidade da sinalização oficial e causar riscos para motoristas e pedestres. Caso haja pintura irregular, o responsável pode ser intimado a remover a intervenção por conta própria. Se isso não ocorrer, a CET realiza o serviço e cobra posteriormente os custos.
Os artigos citados, no entanto, tratam especificamente da proteção e da visibilidade da sinalização de trânsito, proibindo elementos que possam causar confusão, ocultar placas ou comprometer a segurança viária. O artigo 81 proíbe inscrições, publicidades ou objetos que interfiram na visibilidade da sinalização; o artigo 82 veta inscrições diretamente sobre placas de trânsito; e o artigo 84 determina que o órgão responsável pela via pode retirar qualquer elemento que prejudique a segurança ou a leitura da sinalização oficial.


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