
Fui Professor Universitário por 23 anos. Poucas alegrias se comparam a estar em uma Sala de Aula. Achando que estamos ensinando, estamos aprendendo.
Tive muitas alegrias ao longo desse tempo, mas já fazia um tempo que não ia à universidade para uma noite típica da faculdade. Salas e corredores cheios. Alunos e professores conversando.
Voltei para participar de uma Feira de Profissões, de onde transmitimos, ao vivo, um programa de rádio. A plateia, alunos do curso de Jornalismo. O tema: mercado de trabalho. Os debatedores: jornalistas experientes perguntando, especialistas, respondendo.
Inevitável que o assunto passasse pelo perfil comportamental da Geração “Z”. Mas, quero abordar, não o que nos difere, mas o que há de comum entre as gerações: a vocação, o “chamado”, ao pé da letra, vocare, do Latim.
Você já se perguntou por que escolheu a carreira em que atua?
Minha mulher, Silvia, arquiteta há mais de 30 anos, na infância recortava plantas de anúncios de jornal, para recompô-las como ela própria as faria. É assim que nos “achamos” profissionalmente, lendo os sinais que a vida nos apresenta.
A mesma vida nos leva por caminhos que dificultam a escolha, ou que tenha sido trazido de volta, como eu ao caminho da vocação original por caminhos misteriosos.
Formei-me em Engenharia Mecânica porque minha cabeça traduz tudo em números e processos, mas essa mesma formação me levou à Docência. Quando penso em mim profissionalmente, é de pé, numa sala, ministrando uma aula ou uma palestra que me vejo.
Mesmo tendo “virado a chave” para Recursos Humanos, o chamado original permanece lá, firme e forte. Fazer e responder perguntas.
Interessante ver como agem diferente os alunos que têm verdadeira vocação e os que estão por outras razões.
No campo de “outras razões”, há um perigo a ser evitado na hora de escolher o caminho profissional que carregará pelo resto de sua vida: o dinheiro. Escolher uma carreira considerando se ela é “bem paga” ou não é trilhar o caminho da incerteza.
As profissões, como “produto’, têm valor determinado pela oferta e procura. O que é bem remunerado hoje poderá não ser amanhã, e você estará preso pelo resto da vida a algo que não gosta de fazer.
Depois, a mediocridade, no sentido literal, que é estar na média. Você conseguirá destaque na profissão se estudar muito, dedicar-se por horas de trabalho, aprender por toda a vida. Quem tem disposição de dedicar-se tanto assim se não for por algo com o qual realmente se identifica?
“Estou velho demais para mudar de carreira”. Duvido. Sempre é possível mudar. Não é preciso abandonar tudo para seguir um novo caminho. Há diferentes formas de manter-se conectado àquilo que gosta de fazer.
Tenho um amigo, cirurgião reconhecido por seus pares, que foi guia turístico na juventude. Hoje, quando viajamos juntos, ele faz os roteiros, conhece a história, os hábitos e os idiomas do roteiro que vamos fazer. Achou um jeito de continuar a fazer o que gosta.
Outro perigo que nos ronda quando fazemos algo fora de nossa identificação é apequenar-se, fazer menos do que podemos fazer.
Na saída da Feira de Profissões, com um amigo e (hoje) editor, lembrávamos de uma passagem bíblica que explica bem essa história: a Parábola dos Talentos. “Pois a quem tem, mais será dado, e terá em grande quantidade; mas, a quem não tem, até o que tem lhe será tirado”.
Não seja escravo de si mesmo. Multiplique suas competências e transforme sua atividade em algo que lhe dê verdadeiro prazer.



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