
Se José Saramago estava certo ao dizer que a melhor literatura é aquela que desassossega, Annie Ernaux pode ser considerada a camisa 10 (é tempo de copa, vale a referência) desse movimento. Ninguém passa incólume pelos livros da escritora francesa. Sempre voltados à autobiografia, seus títulos pontuam episódios bastante singulares (como em Paixão Simples e O Acontecimento) ou traçam um espectro mais alargado de sua existência (as seis décadas do belíssimo Os Anos). Certo é que o leitor sairá de qualquer deles desconjuntado, na melhor acepção do termo.
Nas breves sessenta páginas de A Outra Filha, Ernaux escreve uma espécie de carta a uma irmã que faleceu antes da autora nascer. O fato, por si só, já representaria uma dor bastante representativa; entretanto, a abordagem foi magistralmente trabalhada para se fixar sobre um aspecto particularmente perturbador: seus pais nunca falaram sobre o assunto. Foi ouvindo ao acaso uma conversa entre a mãe e uma vizinha que Ernaux, ainda muito criança, soube que teve uma irmã, que ela morreu de difteria aos seis anos. Foi nesse dia que escutou uma frase que a acompanharia para sempre: “ela era mais boazinha do que aquela ali”. Aquela ali era, evidentemente, ela.
A partir daí, uma série de desafortunados atos confirmam a omissão e constrangem a família, tudo para manter a ficção até as últimas consequências. Imagine enterrar o pai bem ao lado da sepultura da filha nunca mencionada. Ou abrir um álbum de família e ouvir de um parente bêbado que a menina escanteada na foto era sua irmã. Sem culpar os pais – a autora não os censura, por compreender que eles não poderiam imaginar o que essa dor causaria à criança que está viva -, Ernaux tece, com a coragem, a beleza e a erudição que lhes são próprias, uma carta que nunca será lida pela destinatária. Mas nós, seus leitores, lemos, Annie. E sentimos tudo.
Motivos para ler:
1- Annie Ernaux, pesquisadora, professora e escritora francesa, foi agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura em 2022. Forjando um estilo muito próprio – alguns o chamam de autobiografia impessoal -, a escritora ganhou projeção e se tornou um merecido sucesso mundial. É daquele tipo de obra que, depois de ler um título, você desejará ler tudo;
2- Dentre tantos fatos e atos impactantes descritos neste pequeno livro, um deles nos pareceu muito significante: os pais sempre diziam que só poderiam ter uma única filha, dadas as conjunturas econômicas da família. Eis o ponto nevrálgico do texto: o modo como Ernaux desenvolve a ideia de que, para ela nascer, foi preciso que sua irmã morresse;
3– Causou polêmica a fala de Aurora Bernardini, tradutora e professora da USP, ao proclamar que Annie Ernaux seria só uma best-seller, interessante até certo ponto mas nada muito além disso. Com o devido respeito à competente e experimentada pesquisadora, Ernaux possui uma invulgar habilidade de transfigurar terrores humanos em texto, alcançando uma notável excelência nesse processo. Nossa opinião é a de que o Nobel foi absolutamente merecido. Cabe a você, leitor, julgar.



Achei “O Acontecimento” forte, e esse parece ser mais uma grande pedrada que a Annie levou na vida. Obrigada pela resenha, vou dar preferência a este, quando eu for adquirir outro dela. ^^
Preciso muito ler esse livro, lembro de uma certa conversa que alguém me falou, acho que era de Saramago, algo do tipo de que todas as mazelas são provenientes da família. Obviamente que toda regra possui a sua exceção, mas creio que o caos realmente reside na família mesmo e acabamos projetando isso para as nossas demais relações pessoais. Tenho comigo, na minha história pessoal, certa vez minha mãe falou que realizou diversos abortos e teria tentado me abortar, a informação foi tão impactante que até hoje não tenho certeza se isso foi dito mesmo ou se é algum delírio meu, simplesmente não tenho coragem de retomar o assunto com a minha mãe, muito menos com o meu pai. Realmente o desassossego já caiu aqui com essa magnífica colina, utilizarei esse livro como mais um capítulo da minha terapia inconclusa.
Ernaux é maravilhosa mesmo. Nao tinha lido nada sobre esse livro, bela dica. Adorei a coluna .
Esse livro deve ser uma caçada na costela. Obrigado pela resenha, vou ler quando der.