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Senadora Mara Gabrilli: a liderança PCD no Brasil merecia mais respeito


22/06/2026 Bruno Oliveira
Senadora Mara Gabrilli: a liderança PCD no Brasil merecia mais respeito
 | Jornal da Orla

A senadora Mara Gabrilli é filiada ao PSD de São Paulo e não deve disputar a reeleição ao Senado em 2026, sendo précandidata a deputada estadual. Essa mudança de trajetória indica uma inflexão em sua posição dentro da hierarquia institucional do sistema político, deslocando sua atuação de um espaço de representação federal para o âmbito estadual. Esse movimento pode ser compreendido como parte de uma reorganização de estratégia política e partidária no contexto do planejamento interno do PSD em São Paulo, reposicionando sua atuação pública dentro de um novo ciclo eleitoral.

Se a senadora anunciasse hoje sua aposentadoria da vida pública, ainda assim já teria seu nome garantido na história política do Brasil por ter integrado a primeira chapa presidencial 100 % feminina da história eleitoral do país, em 2022, que obteve 4,16 % dos votos válidos. Esse percentual, à primeira vista, pode parecer modesto quando se considera que a maioria do eleitorado é composta por mulheres — cerca de 52 % — mas ganha outra dimensão quando analisado sob a perspectiva do segmento da pessoa com deficiência e da inclusão social: tratase de um fato histórico para esse grupo.

A questão central, no entanto, é a subsegmentação dos direitos: cada recorte do próprio grupo costuma defender apenas a sua pauta específica sem enxergar o conjunto. Quem já participou ao menos uma vez de reuniões de conselhos municipais da pessoa com deficiência sabe do que se trata, independentemente da cidade, pois a habilitação e a reabilitação sociais muitas vezes não avançam justamente por falta de união do segmento.

Há também uma leitura baseada na experiência: existe certo grau de disputa interna e resistência em relação às lideranças ou àqueles que se dispõem a representar o grupo. Quem já trilhou esse caminho — como ao disputar uma vaga de vereador — conhece a dificuldade de pedir votos dentro do próprio segmento, onde a capacidade de representação não é reconhecida por avaliação de mérito, mas por disputas simbólicas internas e projeções individuais. É uma realidade pouco discutida, mas presente: há reconhecimento público e, ao mesmo tempo, críticas silenciosas e deslegitimações indiretas.

No Brasil, a dimensão desse eleitorado vem do Censo 2022 do IBGE: cerca de 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a aproximadamente 7,3 % da população. Embora não haja cruzamento oficial único entre deficiência e idade eleitoral, estimativas demográficas indicam que entre 70 % e 80 % desse grupo tem 18 anos ou mais — um universo potencial de 10 a 11,5 milhões de eleitores aptos a serem votados, além dos jovens de 16 a 17 anos com voto facultativo. Números que evidenciam a relevância política desse segmento, ainda que nem sempre reconhecida com essa centralidade no debate público.

A trajetória da senadora constitui eixo central para compreender a representatividade política das pessoas com deficiência no Brasil contemporâneo: atuação no Senado, projeção nacional ao longo de décadas e presença em instâncias internacionais, como a delegação brasileira no Comitê da ONU, fazem dela uma das raras referências desse segmento em espaços decisórios de alta visibilidade.

Essa trajetória também ganha contorno histórico: se a luta por direitos resulta de décadas de mobilização, a pauta ganhou maior institucionalidade em São Paulo a partir dos anos 2000, com estruturas governamentais específicas. Mara Gabrilli teve papel de destaque ao assumir a primeira Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, criada no governo José Serra, contribuindo para consolidar a inclusão como política pública permanente e ampliar seu espaço no debate nacional. Sua atuação transcende a representação parlamentar e marca a construção institucional da causa.

Importante registrar: a atividade política não se configura, em sentido estrito, como uma carreira profissional linear ou estável nos moldes tradicionais do mercado de trabalho. Envolve trajetórias, mandatos e experiências acumuladas, mas é essencialmente institucional e cíclica, sujeita a eleições periódicas, rearranjos partidários e ocupação temporária de funções públicas — sem progressão contínua previsível.

O ponto estrutural, portanto, não reside em aspectos pessoais: durante seu mandato, ela foi a única pessoa com deficiência no Senado, relatora da Lei Brasileira de Inclusão, autora de 56 projetos de lei e duas propostas de emenda à Constituição, integrante da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa. Essa marca mostra que a representação ainda depende fortemente de trajetórias individuais, num modelo pouco institucionalizado, sem rede ampla, renovável ou mecanismos formais de sucessão.

A decisão de deixar o Senado para concorrer à Assembleia Legislativa reforça essa fragilidade: sai uma voz singular que representava milhões no Legislativo federal, reduzse a capacidade de propor normas nacionais, alterar a Constituição e acompanhar políticas cruciais.

Nesse contexto, em junho de 2026, a Frente Nacional das Mulheres com Deficiência (FNMD) apresentou a CartaCompromisso aos partidos políticos, defendendo que a democracia só será plena quando esse grupo participar efetivamente da construção das decisões do país. Segundo sua coordenação, aderir significa reconhecer a inclusão como condição para democracia, diversidade e justiça social, incentivando novas lideranças para reduzir a concentração em poucas figuras.

Esse conjunto revela um padrão estrutural: baixa institucionalização e excessiva confiança em lideranças pontuais, ao invés de rede ampla e distribuída em todos os níveis. Não há registros de que Mara Gabrilli tenha formalizado mecanismos de sucessão ou continuidade dentro do movimento; suas falas focam em ampliar participação, sem desenhar estrutura duradoura.

O impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, serve como marco simbólico para interpretar o resultado da chapa TebetGabrilli em 2022: barreiras históricas à presença feminina persistem, moldam resultados e fazem com que um percentual modesto — 4,16 % — tenha peso inédito ao inserir a deficiência na disputa presidencial nacional.

Existe, no senso comum, uma tendência difusa de associar a condição da pessoa com deficiência a uma suposta maior vulnerabilidade física ou de saúde, percepção que circula em diferentes espaços sociais e que, em determinados contextos, pode acabar sendo indevidamente projetada sobre figuras públicas e suas trajetórias políticas, gerando interpretações apressadas sobre permanência, recuo ou reorganização de percurso na vida institucional. Essa leitura, contudo, não se sustenta como regra analítica, nem pode ser aplicada de forma automática, uma vez que a deficiência não constitui um indicador homogêneo de limitação funcional ou de incapacidade decisória, tampouco define, por si só, o grau de autonomia, desempenho ou continuidade de atuação em ambientes de alta complexidade como o campo político. No caso da vida pública, essa percepção social frequentemente se sobrepõe a um dado estrutural mais consistente, que é o caráter intrinsecamente desgastante da atividade política, marcada por exposição permanente, pressão institucional contínua, ciclos intensos de trabalho, demandas públicas sucessivas e alto nível de escrutínio, fatores que afetam todos os agentes políticos independentemente de condição física, idade ou trajetória pessoal. Nesse sentido, decisões de mudança de função, transição de cargo ou reorientação de percurso político devem ser compreendidas a partir de um conjunto amplo de variáveis — institucionais, partidárias, estratégicas e pessoais — sem que se estabeleça relação direta, automática ou causal com condições de saúde ou com generalizações sobre grupos específicos, evitandose, assim, interpretações que reduzam trajetórias complexas a um único fator explicativo.

Dessa forma, a trajetória de Mara Gabrilli funciona como indicador de um estágio incompleto: avanços institucionais existem, mas não se consolidou uma base ampla, diversa e sustentável de lideranças do segmento em nível nacional.

O cerne da questão, portanto, não está na permanência ou saída de uma figura específica, mas na fragilidade institucional da representação desse grupo. Uma democracia inclusiva não pode depender de casos isolados de visibilidade; precisa de estruturas permanentes de participação, representação e continuidade institucional — para que a presença da pessoa com deficiência nos espaços de poder não dependa exclusivamente de trajetórias individuais de alta visibilidade.