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Um dia na vida de Abed Salama

16/10/2025 Rafael Medeiros
Um dia na vida de Abed Salama | Jornal da Orla

O infindável conflito armado entre Israel e Palestina escalou nos últimos anos. Noticiários de todo o mundo diariamente reportam ofensivas de ambos os lados. Imagens terríveis do sofrimento de inocentes civis rodam pelas mídias. Cientistas políticos tentam entender, numa visão ocidentalizada, tudo o que se passa. Não há diagnóstico assertivo, tampouco previsão para a paz. 

Entretanto, em meio à violência, as pessoas vivem. Sem recorrer a argumentos políticos e/ou ideológicos, o jornalista Nathan Thrall lançou, em 2023, o livro Um dia na vida de Abed Salama. Partindo de um triste episódio envolvendo um acidente com um ônibus escolar que vitimou crianças palestinas, o escritor traça arcos narrativos que cruzam um pai em busca de seu filho, muita desinformação, tragédias inomináveis e um muro segregacionista. Tudo isso irá convergir nas conclusões do brilhante epílogo: ali percebemos os fatores reais que causaram o desastre automobilístico. Há acumulação, há responsabilidade. Mas os verdadeiros arquitetos da desgraça nunca são apontados. 

Unindo competência jornalística com um fino talento literário, Thrall merecidamente ganhou o Pulitzer de não ficção com este livro. Um título para sentir nos ossos a vertigem de um mundo colapsado e, mais do que isso, compreender um pouco do que se passa do lado de lá do planeta. Recomendadíssimo. 

Motivos para ler:

1- Nathan Thrall, judeu nascido na Califórnia, vive atualmente em Jerusalém. Em 2024 foi agraciado com o honroso prêmio Pulitzer de não ficção. O protagonista do livro, Abed Salama, não conseguiu comparecer ao lançamento do título devido aos bloqueios israelenses; 

2- Uma das concretas funções da literatura é viabilizar o acesso a outras formas de vivência. Neste livro tomamos contato com os tão diferentes modos de ser e viver do Oriente Médio. A par disso, os sentimentos fundamentais que emergem da leitura são, sem dúvida, universais. Concluímos que, pondo de lado as reservas culturais, o fator humano possui um núcleo básico compartilhado por todos. Talvez aí esteja a chave para começar a estabelecer um diálogo comum;

3 Apesar de se tratar de um trabalho jornalístico-investigativo, o livro pode ser lido como um romance literário. Porém, que o leitor nunca deixe de lado esta aterradora perspectiva: tudo que está no livro aconteceu.