
O infindável conflito armado entre Israel e Palestina escalou nos últimos anos. Noticiários de todo o mundo diariamente reportam ofensivas de ambos os lados. Imagens terríveis do sofrimento de inocentes civis rodam pelas mídias. Cientistas políticos tentam entender, numa visão ocidentalizada, tudo o que se passa. Não há diagnóstico assertivo, tampouco previsão para a paz.
Entretanto, em meio à violência, as pessoas vivem. Sem recorrer a argumentos políticos e/ou ideológicos, o jornalista Nathan Thrall lançou, em 2023, o livro Um dia na vida de Abed Salama. Partindo de um triste episódio envolvendo um acidente com um ônibus escolar que vitimou crianças palestinas, o escritor traça arcos narrativos que cruzam um pai em busca de seu filho, muita desinformação, tragédias inomináveis e um muro segregacionista. Tudo isso irá convergir nas conclusões do brilhante epílogo: ali percebemos os fatores reais que causaram o desastre automobilístico. Há acumulação, há responsabilidade. Mas os verdadeiros arquitetos da desgraça nunca são apontados.
Unindo competência jornalística com um fino talento literário, Thrall merecidamente ganhou o Pulitzer de não ficção com este livro. Um título para sentir nos ossos a vertigem de um mundo colapsado e, mais do que isso, compreender um pouco do que se passa do lado de lá do planeta. Recomendadíssimo.
Motivos para ler:
1- Nathan Thrall, judeu nascido na Califórnia, vive atualmente em Jerusalém. Em 2024 foi agraciado com o honroso prêmio Pulitzer de não ficção. O protagonista do livro, Abed Salama, não conseguiu comparecer ao lançamento do título devido aos bloqueios israelenses;
2- Uma das concretas funções da literatura é viabilizar o acesso a outras formas de vivência. Neste livro tomamos contato com os tão diferentes modos de ser e viver do Oriente Médio. A par disso, os sentimentos fundamentais que emergem da leitura são, sem dúvida, universais. Concluímos que, pondo de lado as reservas culturais, o fator humano possui um núcleo básico compartilhado por todos. Talvez aí esteja a chave para começar a estabelecer um diálogo comum;
3– Apesar de se tratar de um trabalho jornalístico-investigativo, o livro pode ser lido como um romance literário. Porém, que o leitor nunca deixe de lado esta aterradora perspectiva: tudo que está no livro aconteceu.



Excelente análise! É fascinante ver o Oriente Médio retratado pela literatura, longe das lentes do noticiário, revelando o lado humano que tantas vezes se perde.
Belíssima resenha, Dr. Rafael, mas esse livro vou passar! Traumatizada demais com a minha própria realidade para poder encarar outras tantas tão mais difíceis que a minha. Bastou a mim os livros: O Caçador de Pipas e a Cidade do Sol, Khaled Hosseini. Mas não duvido da profundidade desta sua leitura aqui apresentada. Belíssima resenha, Dr.!
Retrata infelizmente uma parte do sofrimento palestino, expondo a dor das injustiças que são cometidas contra este povo.