
Era uma sexta-feira, como esta. Em 20 de junho de 1975, estreava nos Estados Unidos um filme que prometia ser só mais um suspense barato com um bicho assassino no mar. Só que “Tubarão” virou tudo, menos isso. A ponto de, cinco décadas depois, ainda ser impossível entrar no mar sem lembrar da musiquinha ameaçadora composta por John Williams — e dar aquela olhadinha em volta, vai que…
Com direção de um então jovem de 27 anos chamado Steven Spielberg, “Tubarão” foi o primeiro blockbuster da história do cinema. E isso não é força de expressão de crítico empolgado: foi o primeiro filme a apostar numa estratégia de lançamento em massa, em mais de 400 salas simultaneamente, acompanhado por uma campanha publicitária pesada na TV. O resultado? Bilheteria monstra — e um novo jeito de Hollywood pensar cinema.
A história é simples, direta e absurdamente eficaz: um tubarão branco começa a atacar banhistas numa ilha fictícia chamada Amity. O chefe de polícia, vivido por Roy Scheider, se junta a um cientista marinho (Richard Dreyfuss) e a um caçador de tubarões meio maluco (Robert Shaw) pra tentar matar o bicho. O resto é tensão, suor nas mãos e Spielberg mostrando, já ali, que sabia como manipular o medo do público como poucos.
O que torna “Tubarão” tão especial não é só o tubarão — aliás, é até curioso: o bicho quase não aparece. Isso porque o animatrônico usado nas filmagens vivia quebrando (o que deixou Spielberg à beira de um colapso nervoso durante as filmagens). A solução foi filmar o mínimo possível do bicho e deixar o resto por conta da trilha sonora e da sugestão. Foi um acidente de percurso que acabou virando aula de direção: o que a gente não vê assusta muito mais.
Os atores seguram bem a onda — especialmente Robert Shaw, que rouba a cena no monólogo em que conta sua experiência com tubarões durante a Segunda Guerra. Dreyfuss, ainda um galã de óculos e carisma, injeta leveza na história. E Roy Scheider, com aquele olhar meio exausto e resoluto, é o nosso guia nesse pesadelo marítimo.
Mas quem saiu realmente consagrado foi Spielberg. Antes de “Tubarão”, ele era apenas uma promessa. Depois, virou o homem que mudou Hollywood. O sucesso do filme abriu as portas para a fase mais espetacular de sua carreira, com “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, “Os Caçadores da Arca Perdida” e “E.T.” na sequência. Nada mal pra quem quase foi demitido durante as filmagens de “Tubarão”.
O filme também se deu bem nas premiações. Levou três Oscars: Melhor Trilha Sonora Original (John Williams, que começou aí sua parceria duradoura com Spielberg), Melhor Edição e Melhor Som. Perdeu o prêmio de Melhor Filme para “Um Estranho no Ninho” — vá lá, era um páreo duro —, mas saiu com prestígio e com o status de clássico instantâneo. Ganhou ainda o Globo de Ouro de melhor trilha e um BAFTA pelo mesmo motivo.
E tem mais: “Tubarão” não só lotou salas como, indiretamente, mudou a relação das pessoas com o mar. O medo irracional de tubarões cresceu (coitados dos bichos, que nem gostam tanto de carne humana assim), e as férias de verão nunca mais foram as mesmas. Em troca, o cinema ganhou um modelo novo de sucesso comercial e Spielberg ganhou o mundo.
Cinquenta anos depois, o impacto ainda é palpável. Qualquer filme que envolve bicho assassino — de Anaconda a Megatubarão — deve algo a Spielberg e seu tubarão mecânico temperamental. E cada vez que alguém entra no mar e sente aquele friozinho na espinha, dá pra dizer que Tubarão ainda está nadando por aí.


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