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Trilogia de Copenhagen

23/07/2025 Rafael Medeiros
Trilogia de Copenhagen | Jornal da Orla

Uma autobiografia esmagadora. Assim pode ser capitulada a Trilogia de Copenhagen, título que reúne, em três tomos (Infância, Juventude e Dependência), a labiríntica vida da escritora Tove Ditlevsen. Balizada por uma irredutível vocação literária desde a pequena infância, Tove sempre se guiou pelo objetivo de escrever e publicar seus textos. Uma convicção inquebrantável que encontrou forte resistência não só dentro da própria família, mas também em uma sociedade refratária às aspirações de uma mulher proveniente da classe trabalhadora. 

Tove sintetiza sua infância em uma citação que causa perplexidade: “A infância é longa e estreita feito um caixão e não dá para escapar dela por conta própria”. Sentia-se adulta antes do tempo e envolvida numa melancolia crescente, mormente depois de ouvir do pai que mulher alguma poderia viver de poesia. Na juventude, ela só desejava deixar sua família para, enfim, escrever. Envolveu-se em relacionamentos duvidosos e se casou com um redator muito mais velho. O terço final do livro – Dependência – é a fração mais impressionante da sua vida: entre divórcios, a ascensão de Hitler e um terrível vício do qual jamais se livraria, Tove finalmente se tornou uma escritora de sucesso. Mas o preço, cobrado por um mundo terrível, marcará essa mulher de forma irreversível.

Trata-se da obra-prima da autora dinamarquesa mais aclamada do século XX. Um registro extremamente honesto de uma mulher que, ao final de todas as coisas, só queria escrever. 

Motivos para ler:

1- Tove Ditlevsen nasceu em 1917, num bairro operário de classe baixa de Copenhagen. Teve uma profícua carreira literária. Escreveu contos, poemas, romances e memórias. Trilogia de Copenhagen é sua obra mais conhecida. Suicidou-se em 1976;

2- Um dos fatores que mais chama a atenção diz respeito à ambígua relação de Tove com a sua mãe. Na infância, não se sentia amada. Na juventude, a única preocupação da mãe era que Tove se casasse, pouco importando com quem – a ponto de apoiar entusiasticamente o casamento da filha com um homem que tinha idade para ser seu pai. Somente na fase final da vida houve uma aproximação mais íntima entre as duas. Esta relação é apenas um reflexo de tempos (não totalmente idos) em que mulheres eram subjugadas a cumprir papéis estabelecidos;

3Com este título, o leitor terá em mãos uma memorabilia que, além de muito bem escrita, desassossegará sua cabeça. Eis aí um típico efeito da boa literatura.