Longevidade

Trabalho voluntário suaviza o envelhecer

23/08/2025 Alceu Nader
Trabalho voluntário suaviza o envelhecer | Jornal da Orla

Soma de diversos aspectos do voluntariado afasta a depressão

Somar para ajudar quem precisa está no DNA de Santos. Em 1543, três anos antes da cidade ser fundada, moradores de São Vicente construíram o Hospital de Todos os Santos para atender os mais necessitados. O povoado que se formou em torno, onde hoje é o Museu da Receita Federal, Brás Cubas fundou a Vila de Santos.

Hoje, o trabalho coletivo dos pioneiros em torno de um bem comum repete-se em dezenas de grupos de voluntários ligados a alguma denominação religiosa. Ser voluntário faz parte de uma velhice ativa e feliz. Ter um compromisso, encontrar-se com outros voluntários, criar amizades, acolher e ser acolhido, tudo somado, afasta principalmente a depressão, porta de entrada para uma série de enfermidades típicas do envelhecimento, como a demência e o Alzheimer.

Entre as cidades brasileiras consideradas grandes, com mais de 300 mil habitantes, Santos é a que tem o maior percentual de pessoas com 60 anos ou mais, em comparação ao total da população — não por acaso, também lidera na oferta de atividades para essa faixa etária.

Há dois tipos de voluntários disponíveis na cidade. O esporádico, que trabalha nas emergências, como no caso recente do incêndio do caminho de São Sebastião; e o fixo, que também participa dessas situações dramáticas, mas tem como foco o compromisso diário com o trabalho voluntário.

Olhos e ouvidos do poder público
O ouvidor municipal de Santos, Marcos Libório, coordena atualmente vários programas de voluntariado. Um deles é o “Amigos do Verde”, que reúne munícipes para plantar árvores em espaços públicos. A maioria dos voluntários tem mais de 60. “Até o trabalho duro de preparar a terra para o plantio acaba sendo prazeroso. Dá para ver a criação de amizades, enquanto trabalham, conversam, desabafam, trocam experiências e se incentivam mutuamente. Todos se sentem valorizados e ficam na espera para o próximo encontro”, diz ele. Nos três últimos meses, plantaram mais de cem árvores.

O “Amigos do Bairro”, também coordenado pela Ouvidoria, é outra opção, mas exige, antes, que o voluntário seja capacitado para encaminhar demandas e orientar moradores sobre os serviços públicos disponíveis. Dos vinte habilitados até agora, oito são 60+ – e esse número tende a crescer com outros dez “amigos” que estão sendo formados. Marcos Libório classifica esses voluntários como “muito importantes para o poder público“. Eles servem para dar a exata noção do que podem ou não esperar da prefeitura, e “ampliam a percepção do cidadão. Por isso, trabalham para a melhoria da zeladoria da cidade”.

As Rosinhas formam a Ouvidoria Rosa. Seu foco é a Saúde, trabalhando para a Associação Santa Isabel. Sua especialidade são os atendimentos emergenciais, atuando como ponte entre famílias que enfrentam alguma vulnerabilidade e o poder público. Até bem pouco tempo, as Rosinhas eram ligadas à Santa Casa, dividindo funções com as Amarelinhas, o grupo voluntário mais antigo de Santos.

Repetindo a história da criação do primeiro hospital da região, as Amarelinhas também nasceram por iniciativa de um grupo de moradoras de São Vicente. Foi em 1957, quando a epidemia da gripe asiática infectou milhares de pessoas, muitas delas da linha de frente no socorro aos doentes. As Rosinhas substituíram os enfermeiros doentes e plantaram a semente da atual Associação de Voluntários da Santa Casa de Santos (Avosc), com pessoa jurídica independente do hospital.

Aparecida é voluntária das Amarelinhas há 22 anos

Há vários homens voluntários entre as Amarelinhas, apesar do feminino. Todos trabalham em turno. O movimento da sede não para, assim como o telefone que toca a todo instante de qualquer ala do hospital. Pode ser apenas para providenciar café, aparar o cabelo ou fazer a barba de alguém sob internação, ou para providenciar o empréstimo de bengalas, andadores e muletas, ou ainda prover as primeiras roupas do bebê de país sem dinheiro. Tudo que é urgente, mão não demanda conhecimento médico ou paramédico, cai ali.

As Amarelinhas nada recebem pelo trabalho. Para garantir o custeio de suas atividades, aguardam o dia de pagamento do salário dos funcionários do hospital na porta do refeitório para vender roupas, sapatos, enxovais e até eletrodomésticos portáteis. No Natal, monta-se uma barraca mais sortida.

Aparecida Regina Ramos Santos, 60+, voluntária há 22 anos, é a atual presidente da Avosc. Seu marido, Antônio Carlos, é voluntário há 24. A Covid-19 marcou o período mais difícil para todos. O serviço foi interrompido e voltou mais de um ano depois da pandemia. “Depois da Covid-19, houve muita mudança. Éramos 120, agora somos 85”, diz ela.

Em várias folhas de planilha encapadas com plástico, Aparecida atualiza as horas de serviço de cada um dos voluntários. Dona Odyssea Gomes dos Santos, quatro filhos, é a atual recordista: 29.300 horas em 44 anos de trabalho. Sua fisionomia e humor contrariam a idade de 88 anos. Ela resume os anos que dedicou ao serviço voluntário. “A gente não tem noção do quanto é valioso. Foi a melhor coisa que fiz na vida. Nós é que deveríamos pagar para trabalhar”.