Cena

Depois dos 40, encontrar um amor exige coração aberto e atenção a golpes

18/07/2026 Isabela Marangoni
Reprodução Pexels

Encontrar um novo amor depois dos 40 anos nunca foi tão simples — e, ao mesmo tempo, nunca exigiu tantos cuidados. Com o crescimento dos relacionamentos pela internet, aumentaram também os casos de perfis falsos e golpes que exploram a carência emocional de quem busca uma companhia. Depois de 14 anos acompanhando milhares de histórias de encontros, namoros e casamentos, o jornalista Airton Gontow acredita que o primeiro passo para viver uma boa experiência é unir coração a muita prudência.

Criador do Coroa Metade, plataforma de relacionamentos voltada para pessoas maduras, ele costuma repetir um conselho que considera indispensável para quem decide conhecer alguém pela internet. “Você pode acreditar no amor, mas também precisa pensar racionalmente. Entre de peito aberto e com a mente atenta”.

A recomendação é resultado da convivência diária com usuários e de anos observando tanto histórias felizes quanto tentativas de golpe. Por isso, Airton orienta que os primeiros contatos aconteçam sempre dentro da própria plataforma, sem compartilhar logo no início telefone, e-mail ou redes sociais. Também aconselha marcar o primeiro encontro em um local público, chegar e ir embora por conta própria e avisar familiares ou amigos sobre onde estará.

Outra regra é nunca enviar dinheiro para alguém conhecido apenas pela internet. Segundo ele, golpistas costumam inventar histórias envolvendo doenças, acidentes, problemas com passagens, liberação de bagagens, heranças ou outras situações de emergência para sensibilizar as vítimas. Também recomenda não enviar fotos íntimas nem fornecer informações pessoais que possam ser usadas em tentativas de extorsão.

Para Airton, pequenos detalhes também ajudam a identificar comportamentos suspeitos. Perfis que apresentam informações contraditórias, pessoas que mudam constantemente a própria história ou que fazem perguntas repetidas sobre dados básicos podem indicar falta de interesse verdadeiro ou até uma tentativa de golpe. “A internet aproxima pessoas honestas, mas também aproxima pessoas mal-intencionadas. O importante é manter a atenção sem perder a esperança”.

A experiência de orientar quem procura um relacionamento surgiu da própria trajetória do jornalista. Divorciado aos 40 e poucos anos, ele descobriu que recomeçar a vida afetiva era bem mais difícil do que imaginava. “Mesmo sem ser tímido, senti na pele como é complicado conhecer alguém quando você já não frequenta os mesmos lugares da juventude. Você vai do trabalho para casa e de casa para o trabalho. Foi aí que percebi que existia uma necessidade”.

A cada novo match, Airton e sua esposa, Maria, abrem um espumante para celebrar

A ideia do Coroa Metade amadureceu durante um reencontro com antigos colegas de escola. Em meio às conversas, Airton percebeu que muitos estavam divorciados, viúvos ou solteiros e compartilhavam o mesmo desejo: encontrar alguém para dividir a vida.

Uma frase ouvida naquele encontro nunca mais saiu da memória. “Companhia eu tenho fácil, companheira não.” Para ele, esse comentário traduzia exatamente o que muitas pessoas maduras buscavam: não apenas alguém para sair ou conversar, mas um parceiro com interesses parecidos, valores em comum e disposição para construir uma nova história.

Quando o site foi lançado, há 14 anos, conhecer alguém pela internet ainda despertava desconfiança, principalmente entre pessoas acima dos 40 anos. Até o nome da plataforma causou estranhamento. “Muita gente achou curioso no começo, mas eu precisava deixar claro para quem o site era destinado. Naquela época nem existiam expressões como 50+ ou 60+. Era um público que praticamente não tinha um espaço voltado para ele”.

Ao longo desse período, Airton também mudou a forma de enxergar os relacionamentos na maturidade. Se antes dizia que pessoas mais velhas sabiam exatamente o que queriam, hoje acredita que a realidade é um pouco diferente. “Talvez ninguém saiba exatamente o que quer. Mas, depois dos 40, as pessoas sabem muito bem o que não querem”.

Segundo ele, estilo de vida, hábitos, planos para o futuro e até a distância entre as cidades passam a pesar mais na escolha de um parceiro. Ainda assim, defende que ninguém deve procurar alguém perfeito. “É importante ter valores e critérios, mas também estar aberto ao inesperado. Às vezes, justamente as diferenças aproximam as pessoas. Uma gosta de ópera, outra de balé. Uma prefere Chico Buarque, outra Caetano. Isso pode gerar descobertas e enriquecer a relação”.

EMOÇÃO
Se os números mostram o crescimento da plataforma ao longo dos últimos anos, são as histórias dos usuários que mais emocionam o fundador do Coroa Metade. Airton admite que costuma se sensibilizar sempre que acompanha casais que começaram uma conversa no site e acabaram formando uma família.

Vera Garcia e Hélio de Fariase conheceram no Coroa Metade

A lembrança mais marcante envolve Vera Garcia e Hélio de Faria. Eles se conheceram por meio da plataforma e, algum tempo depois, Airton visitou o casal em Paulínia. Vera perdeu o braço direito ainda na infância e, durante um almoço, ele presenciou uma cena que nunca esqueceu. “Tentei passar o dia inteiro sem chorar. Depois, em uma churrascaria, vi o Hélio cortando a carne para ela. Era um gesto simples, mas cheio de carinho e cuidado. Aquilo ficou gravado na minha memória”.

Na volta para casa, a esposa dele, Maria, resumiu o sentimento. “Se o site não tivesse dado certo e só esse casamento tivesse acontecido, já teria valido a pena”.

Outra história mostra que a internet nem sempre aproxima pessoas separadas por grandes distâncias. Um casal de Pirituba, em São Paulo, morava no mesmo bairro, tinha amigos em comum e frequentava lugares parecidos, mas nunca havia se encontrado. Foi um apelido utilizado no perfil que permitiu o primeiro contato. “A internet aproxima quem está longe, mas também aproxima quem sempre esteve perto”.

Os primeiros sinais de que o projeto realmente funcionaria apareceram poucos meses após o lançamento da plataforma. Airton recebeu uma mensagem de um professor de História que queria compartilhar uma novidade. “Ele escreveu dizendo: ‘quero te contar que você já tem pelo menos um beijo no seu site’. Aquilo foi uma alegria enorme”.

A partir daquele dia, Airton e Maria criaram uma tradição. Sempre que recebem a notícia de um namoro, casamento ou união iniciada no Coroa Metade, abrem um espumante para celebrar.

Além da plataforma de relacionamentos, Airton agora dedica parte do tempo ao desenvolvimento do portal Mundo Coroa, voltado ao público maduro, com conteúdos sobre cultura, comportamento, saúde, segurança e qualidade de vida. Também pretende ampliar o número de palestras e encontros presenciais, incluindo eventos em Santos.

Depois de mais de uma década reunindo histórias de recomeços, ele continua acreditando que encontrar um novo amor depende de duas atitudes que podem caminhar juntas: manter o coração aberto para novas possibilidades e a atenção necessária para que a confiança seja construída aos poucos.