Longevidade

Tênis de mesa ganha força como aliado da saúde na terceira idade

28/03/2026 Isabela Marangoni
Fernando Yokota

O tênis de mesa — ou o popular pingue-pongue — tem ganhado visibilidade nos últimos anos, impulsionado até pelo cinema, com o filme Marty Supreme, inspirado na trajetória de Marty Reisman, figura lendária do esporte norte-americano. Mais do que entretenimento, a modalidade vem se firmando como uma importante aliada da saúde física, cognitiva e emocional, especialmente entre idosos.

A trajetória do mesatenista e professor Edson Leguth, de 71 anos, ilustra esse impacto. O primeiro contato com o esporte aconteceu ainda na juventude, no fim dos anos 1960, de forma despretensiosa. “Era brincadeira de turma, de família. Ficava esperando minha vez, passavam 20 pessoas na frente, e quando eu entrava, não sabia nem pegar na raquete”, relembra.

A frustração inicial virou motivação. A dedicação o levou rapidamente às competições, como o Campeonato Paulista. No entanto, a rotina de trabalho e estudos o afastou do esporte por décadas. “Tive que parar. Só fui voltar lá por 2015”.

O retorno trouxe novas conquistas. Em 2018, Edson participou do Campeonato Mundial de Veteranos, em Las Vegas, e, pouco depois, venceu a Liga Nipo-Brasileira de Tênis de Mesa nas categorias Sênior B e Sênior A. “Entrei e acabei sendo campeão. Aí me passaram para a A — e ganhei também”.

Hoje, ele mantém uma rotina de treinos ao menos três vezes por semana. Mais do que desempenho, o esporte representa qualidade de vida. “Faz bem para o corpo e para a mente. Trabalha equilíbrio, reflexo, agilidade e ainda ajuda a desestressar”.

O convívio social também é parte essencial da prática. “Vamos para treinar, mas também pelo encontro. Fiz muitas amizades. Depois do treino, sempre tem um bate-papo”.

Benefícios
Segundo a psicóloga Rachel Sette, o tênis de mesa funciona como um verdadeiro “aeróbico para o cérebro”. “O esporte ativa diferentes áreas corticais simultaneamente, estimulando a oxigenação e a liberação de substâncias que mantêm os neurônios saudáveis”, explica.

Os impactos emocionais também são significativos. “Há redução da irritabilidade e melhora do humor, com regulação de neurotransmissores como dopamina e endorfina”.

Esse processo contribui diretamente para a autoestima. “Ao perceberem que ainda são capazes de aprender algo novo, os idosos recuperam a sensação de autonomia”.

A socialização é outro ponto-chave. “O jogo funciona como um antídoto contra a solidão e a depressão”.

Prevenção de doenças
A médica geriatra Daniela Lunardelli reforça que os benefícios são amplos. “Além dos ganhos físicos e cognitivos, a socialização faz muita diferença. Para a longevidade, é fundamental conviver e evitar o isolamento”.

Segundo ela, a transformação dos praticantes é perceptível. “Eles se tornam mais saudáveis, passam a se alimentar melhor e ficam mais felizes. E ainda há redução do risco de quedas”.

O treinador Isaac Zauli destaca o impacto cognitivo da prática. “O tênis de mesa exige raciocínio rápido. Você precisa pensar, reagir e executar o movimento correto em questão de segundos”.

Além disso, há ganhos importantes no equilíbrio e na coordenação motora. “O idoso precisa se ajustar o tempo todo, e isso ajuda muito”.

A prática regular de atividade física também tem papel fundamental na prevenção e no controle de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson.

A ginecologista e especialista em longevidade Márcia de Pádua explica que há evidências científicas consistentes sobre esses benefícios. “Pessoas mais ativas têm até 28% menos risco de desenvolver Alzheimer”.

Segundo ela, os efeitos estão ligados a diferentes mecanismos do organismo. “Há melhora cardiovascular, aumento de fatores neurotróficos e menor acúmulo de proteínas associadas à doença”.

No caso do Parkinson, os ganhos vão além do físico. “A prática melhora a coordenação motora fina, o tempo de reação, o ritmo e a antecipação, além de reduzir a rigidez”.

Um exemplo é o do ex-deputado Edmur Mesquita, que passou a praticar o esporte após o diagnóstico da doença e foi medalhista no Mundial de 2019. “A qualidade de vida dele mudou completamente”, relata Isaac.

Conquistas
Entre os momentos mais marcantes da trajetória recente, Edson destaca a participação no Campeonato Sul-Americano Masters, no Rio de Janeiro. “Fui sem expectativa e acabei ficando em terceiro lugar no individual e por equipes”.

Hoje, ele prefere disputas individuais, mas mantém o vínculo com o ambiente coletivo, especialmente nos treinos em clubes tradicionais de Santos, como a Associação Atlética Saldanha da Gama.

Envelhecer com qualidade
Para Rachel Sette, o esporte ajuda a ressignificar o envelhecimento. “Atividades como essa substituem a imagem da fragilidade pela da competência e do prazer”.

A recomendação para evitar lesões é simples: alongamento, respeito aos limites do corpo, boa postura e uso de equipamentos adequados.

Entre as atividades indicadas, o tênis de mesa se destaca por reunir diferentes estímulos em uma única prática. “É um exercício de leve a moderado que combina mobilidade, atividade cardiovascular e fortalecimento muscular”, afirma Márcia.

Outro benefício importante está na prevenção de quedas. “A prática melhora a coordenação, o equilíbrio e o controle motor fino, contribuindo para manter a independência”.

Apesar dos benefícios, ainda há falta de informação sobre o potencial do esporte, especialmente em cidades como Santos. “Muita gente ainda não conhece. O que mais chega são crianças. O tênis de mesa como qualidade de vida ainda é pouco procurado”, avalia Isaac.

Edson resume. “É meu hobby, meu esporte preferido. Me dá saúde mental e física”. E deixa um conselho direto. “É de baixo impacto, trabalha o corpo inteiro e, principalmente, a mente”.

Isaac completa. “O tênis de mesa desafia, mas também traz alegria e convivência. Vale a pena dar uma chance”.