
A história é conhecida de todos: a filha pródiga, expulsa do vilarejo debaixo das cajadadas do pai, regressa vinte e cinco anos depois. E o retorno é triunfante: viúva de comendador, belíssima e rica, Tieta fez sua vida em São Paulo e reaparece em Santana do Agreste em grande estilo.
Enredando uma pluralidade de inesquecíveis personagens, Jorge Amado pouco a pouco revela os elementos fundamentais do romance: (i) o que Tieta fez/faz em São Paulo?; (ii) por que voltou para o Agreste?; (iii) mais vale manter o Agreste paradisíaco ou render-se ao sedutor progresso industrial?; (iv) para se viver bem é mesmo preciso abolir a consciência?
O livro carrega dentro de si a essência deste país. Ao perfilar um povo fofoqueiro porém hospitaleiro, receitas culinárias maravilhosas, boas doses de corrupção política, também a afetuosidade e a legítima solidariedade com o próximo, Amado compõe uma história que se inicia trágica e termina como tem mesmo que terminar. E Tieta, a Joana d´Arc do sertão, enfim iluminou a cidadela e recebeu a homenagem da mão do povo, devidamente talhada no bonito e reflexivo último capítulo do romance.
Motivos para ler:
1- Jorge Amado, baiano já tantas vezes citado nesta coluna, é para muitos o grande escritor brasileiro. Ninguém passa incólume por um romance de Amado. É daquele tipo raro que escreveu muito e escreveu sempre bem. Tieta foi vertida para o cinema e para a telenovela (esta foi a obra-prima insuperável da TV brasileira) com imenso sucesso;
2- Tieta do Agreste foi o maior empreendimento literário de Jorge Amado. Não só pelo tamanho (são mais de seiscentas páginas), mas pela condução suave de um enredo que poderia, nas mãos de alguém menos habilidoso, se mostrar intrincado. Costuma-se dizer que o mestre é aquele que faz o difícil parecer muito fácil. É o que Jorge faz aqui: a história é deliciosamente contada dentro da circularidade de personagens muito bem-acabados e de fatos extremamente bem trabalhados. Além disso, há capítulos com inserções do autor na função de um terceiro observador. Um absurdo de talento que resultou num livro memorável;
3– O livro trespassa o cotidiano do vilarejo e de seus viventes para também abordar temas que habitam a atualidade de nossos dias: o desenvolvimento industrial em contraste com a preservação ambiental, o conflito letal entre o poder econômico privado e a Administração Pública, a ingenuidade de alguns capturada pela esperteza de outros. Tudo e tanta coisa num só livro. Tieta do Agreste expõe o melhor de Jorge Amado, e isso é muita coisa.



Ai….a tieta……..do agreste
Hipocrisia, corrupção e opressão. Esses são os “valores” que persistem na sociedade brasileira. Passam os anos, os governos, as gerações, mas essa lama continua grudada em todos nós. Um romance atemporal, com certeza. Parabéns.
Boa Medeiros
Parabéns
Tieta é fantástico, a ponto de queremos ir pessoalmente conhecer Mangue Seco.
Parabéns pelo comentário.
Gostei muito da sua análise! Pelos livros de Jorge Amado que li, percebo como ele retrata as mulheres com profundidade, humanidade e potência, especialmente, aquelas que rompem padrões e enfrentam julgamentos sociais. Tieta é um dos exemplos mais marcantes dessa força feminina, uma personagem que questiona normas, desafia o sistema e revela, com ironia e coragem, as máscaras sociais do seu tempo.
Excelente coluna Dr. Rafael, são por brasileiros como vossa senhoria que ainda podemos sonhar com um Brasil melhor, decerto a cultura poderá nos ajudar a vencer os atrasos e barbáries do estado brasileiro, creio que estamos vencendo. Lembro de suas iniciais colunas em 2020 sobre o Capitães de Areia e a recordação da captura do livro em 37 pelo estado. Hoje estamos em novos tempos e podemos contar com vossa inestimável contribuição para o progresso da humanidade, Capitães de Areia li e adorei por força de sua iluminada inspiração, deixarei esse na lista dos próximos, obrigado muito obrigado.
Mais uma grande obra prima do mestre Jorge Amado que conta uma narrativa fabulosa e envolvente.