
Anos 60. Período de transformação política e social. Busca pelos direitos civis. Panteras Negras. Hippies. Rock psicodélico.
Inconformismo com a Guerra do Vietnã. Pop art. O mundo mudava a passos largos. Hollywood demorava a entender as mudanças. A Era de Ouro dos estúdios chegava ao fim. O fracasso retumbante de Cleópatra (1963), com Elizabeth Taylor, era a pá de cal num sistema que produzia filmes cada vez mais distantes da realidade. Os norte-americanos não se enxergavam mais nas superproduções e seus heróis.
Viam filhos, irmãos, amigos, irem à guerra e não voltarem. Caso voltassem, estavam aleijados, física e psicologicamente.
Uma nova geração de cineastas baby boomers precisou surgir para que o cinema do país voltasse a ter relevância e vivesse a fase mais inspirada de sua história: Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Peter Bogdanovich, Michael Cimino, Paul Schrader, George Lucas,
Steven Spielberg, Brian De Palma e outros jovens diretores, influenciados por tudo descrito acima e a nouvelle vague francesa, conceberam clássicos seguidos por clássicos num curto período de tempo.
Corta para 1976. Poucas vezes o caos e a alienação de uma metrópole foram retratados de forma tão poderosa como em Taxi Driver:
Motorista de Táxi, de Scorsese, um dos testamentos definitivos da Nova Hollywood.
Na época de seu lançamento, o filme impressionou, entre outros fatores, por apresentar uma Nova York sem glamour: suja, barulhenta, o inferno na Terra. Em 8 de fevereiro serão completados 50 anos de seu lançamento nos EUA. No Brasil, a obra chegou um mês e meio depois às salas de exibição.
Apesar de muito já ter sido escrito sobre o longa, vale relembrá-lo, até porque a trama dialoga com tempos atuais. Robert De Niro, que trabalhou com Scorsese em Caminhos Perigosos (1973), vive intensamente Travis Bickle. Dispensado do Corpo de Fuzileiros Navais e frustrado, o jovem de 26 anos passa a trabalhar como taxista e sofre de insônia, virando as noites. E é ao trabalhar incessantemente que descobre todos os buracos sujos e a decadência social da Big Apple.
ESGOTO A CÉU ABERTO
Segundo ele, a cidade é um “esgoto a céu aberto” e a “escória” precisa ser eliminada. Alienação e frustração fazem-no viver apenas em seu mundo particular, e não consegue enxergar nada além daquilo – nos lembrando de muitas pessoas da atualidade mergulhadas em suas bolhas.
Cansado do que vê e de ser quem é, tenta voltar à sociedade. “Não acredito que alguém deva passar a vida centrado em si, morbidamente. É preciso tornar-se uma pessoa como outra qualquer”, diz. A busca por redenção tem início com a tentativa de conquistar a auxiliar de campanha Betsy (Cybill Shepherd). Mas Travis é tão deslocado que a convida para o cinema, numa sessão pornô. Ao ser desprezado, resolve se vingar da sociedade, começando com a tentativa de matar um candidato à presidência. Quando esse plano também dá errado, decide resgatar uma prostituta menor de idade (Jodie Foster, com 12 anos na época das filmagens e que teve como dublê sua irmã mais velha, Connie) do cafetão abusivo (Harvey Keitel). Uma jornada quase suicida.
Scorsese, a partir do texto primoroso de Paul Schrader, mostra a realidade nua e crua de uma metrópole superpovoada, tomada por preconceito, intolerância, paranoia, medo e como tudo isso pode excluir e destruir o ser humano. Quando percebemos que cinco décadas se passaram, o impacto ao conferir a trama é ainda maior. Nada mudou. Pelo contrário.
Cinematograficamente, Taxi Driver é uma pérola. A ambientação remete ao filme noir dos anos 40. Há a trilha sonora jazzística de Bernard Herrmann, a narração em off de De Niro, o clima soturno. A jornada do personagem é digna de um faroeste. É o sujeito que segue, sozinho, no limite entre a tragédia e a redenção. Tudo embalado pelo suspense perturbador e o elenco excelente.
MONÓLOGO
Repleto de cenas memoráveis, como o monólogo em que o protagonista, de frente ao espelho, se pergunta: – “Tá falando comigo?!”, o projeto transformou o ator (que havia recebido o Oscar de Coadjuvante por O Poderoso Chefão – Parte II) em estrela, apresentou ao mundo a então garota Jodie Foster, levou a Palma de Ouro em Cannes e influenciou tantas outras produções.
Sua influência, no entanto, ultrapassou os limites do cinema. O corte de cabelo moicano de Travis foi imitado pelos punks. Em 1981, John Hinckley, afirmando querer impressionar Jodie Foster, foi onde Travis não conseguiu e atirou no então presidente dos EUA, Ronald Reagan.
Outros fatos ajudaram a tornar o longa uma lenda. A derrota no Oscar para Rocky – Um Lutador é comentada até hoje. E Cybill Shepherd, que estrelaria junto com Bruce Willis a série A Gata e o Rato, na década seguinte, era detestada por De Niro.
Mas provavelmente o maior legado de Taxi Driver seja, com sua reviravolta final, gerar com gosto amargo no espectador, o velho questionamento: os fins justificam os meios? Assista e pense a respeito.
Disponível nas plataformas HBO Max e Telecine. E se você gostar, assista também: Caminhos Perigosos (aluguel no Prime) e Touro Indomável (Netflix e MUBI), ambos de Scorsese, Perseguidor Implacável (1971, no HBO Max), de Don Siegel, Desejo de Matar (1974, no Prime), de Michael Winner, The Warriors: Os Selvagens da Noite (1971, no Mercado Play), de Walter Hill, e Um Dia de Fúria (1993, no HBO Max), de Joel Schumacher. E leia também Como a Geração Sexo Drogas e Rock n’ Roll Salvou Hollywood, de Peter Bisk. n



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