Longevidade

“Redes sociais têm papel central na fake medicina”

20/07/2025 Ivani Cardoso
Divulgação

Assistir aos vídeos de pessoas como o dr. Drauzio Varella, entre tantos famosos, supostamente receitando remédios e tratamentos milagrosos pode parecer estranho, mesmo assim muitas pessoas caem nos golpes e compram produtos que jamais chegarão. A voz e a imagem têm sido usadas com frequência enganando principalmente os mais velhos. Por enquanto não há no Brasil uma legislação específica, além das dificuldades em coletar provas digitais. Por isso, a fake medicina é uma das questões preocupantes para a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, como explica o geriatra e novo presidente, doutor Leonardo Oliva, nesta entrevista para o Jornal da Orla.

O que é fake medicina?

É um termo utilizado para se referir a qualquer informação falsa ou enganosa ou sem respaldo científico sobre algo relacionado ao meio médico, seja diagnóstico, prevenção, tratamento, cura de doenças. Envolve desde indicações milagrosas de tratamentos ou curas, como utilização de soroterapia (medicação endovenosa aplicada em ambiente ambulatorial, com promessas mirabolantes para melhorar a imunidade e anti-idade) para benefícios questionáveis, o uso indevido de dados preliminares de estudos ou mesmo distorções de evidências científicas, seja para fins comerciais ou pessoais. As distorções nos estudos científicos infelizmente vêm ocorrendo muito.

Há quanto tempo esse problema ocorre e a partir de quando aumentou?

Sempre existiu, mas talvez nas últimas duas décadas, especialmente na última, com a popularização das redes sociais e da capacidade de disseminação de conteúdo de forma muito rápida, ganhou uma escala muito maior e velocidade de propagação nunca vista. A pandemia da Covid-19 foi um grande divisor de águas, surgiu uma serie de informações médicas, sem nenhuma base cientifica. Percebeu-se que falar sobre saúde importava, chamava atenção, vendia, e vieram informações enganosas ou inverídicas.

As redes sociais colaboram?

Sim, elas têm papel central na divulgação da fake medicina. É muito fácil compartilhar esse tipo de informação, tem um alcance muito grande de pessoas atingidas pelo conteúdo sensacionalista. É engraçado observar que o que não é real chama mais atenção, seja pelo que o indivíduo quer ouvir ou porque pega pelo lado do medo, da sensibilidade. Falar que se encontrou a cura para uma doença incurável e que muitos sofrem chama mais atenção do que dizer que infelizmente não temos a cura, mas para reduzir o risco da doença você deve tomar alguns cuidados de prevenção.

Antes os médicos tinham cuidado para não se expor, temiam as sanções éticas, agora não há um controle?

O Código de Ética Médica continua vigente e o médico deve seguir também as leis do país. Os conselhos têm a responsabilidade de fiscalizar a conduta dos médicos. Podemos ponderar se há uma capacidade de realizar essa fiscalização e punição em um meio digital tão abrangente. Talvez seja necessária uma atualização dos mecanismos de controle e atenção maior. Não deve haver qualquer tipo de censura do que deve ou não ser publicado em redes sociais, mas precisamos responsabilizar quem divulga informações falsas.

O quanto a informação enganosa pode ser prejudicial para o idoso?

Quando pensamos na população que se torna mais vulnerável à má informação e às fake news na medicina, essa população tende a ter mais doenças crônicas, utilizar mais tratamentos e medicamentos. E acaba sendo induzida a seguir condutas e tratamentos que não são cientificamente comprovados, até mesmo pela fragilidade emocional de estar diante de uma doença sem tratamento. E isso pode trazer consequências sérias, desde atrasar diagnóstico, interromper tratamentos sabidamente eficazes e essenciais por conta de promessas de novos tratamentos. Há o risco de gastos financeiros desnecessários e o sofrimento emocional.

Que atitudes podem ser tomadas para minimizar impacto negativo das informações falsas?

Acho que o primeiro passo está ligado à população sobre onde ela deve buscar informações científicas, buscar entender quem são os profissionais qualificados. Há ferramentas para saber sobre a habilitação dos médicos, há sociedades de especialidades médicas que podem dar respostas. Também é preciso que venham denúncias de conteúdos enganosos de plataformas partindo dos especialistas da área envolvida. Precisamos promover a educação em saúde digital, para que as pessoas consigam entender o que é enganoso e o que é correto.

As escolas médicas e residências médicas deveriam se envolver na educação de seus alunos, também na prevenção da fake medicina. Já o fazem?

As escolas médicas têm um papel fundamental na preparação dos profissionais que vão exercer a Medicina. Infelizmente, temos visto a abertura indiscriminada de escolas médicas com qualidade duvidosa e sem controle de qualidade e uma educação médica técnica inferior, formando profissionais que até propagam a fake medicina para ganhar dinheiro e engajamento.

Alguma especialidade em especial gera mais problemas para os pacientes idosos?

Se fala muito hoje em anti-aging, medicina da longevidade, medicina integrativa, medicina ortomolecular e medicina regenerativa, especialidades que não existem e fazem parte do rol da fake medicina, normalmente relacionadas ao processo do envelhecimento.

Produtos mágicos para o envelhecimento aparecem a todo instante. Há como evitar?

Não há. Tenho o exemplo de um produto que foi relacionado como sendo da Siemens, que seria um monitor de glicemia sem furar o dedo. Tinha site, foto do produto, médicos e atores globais aparecendo na propaganda. Tudo era falso, o produto nem existe. Eram vídeos criados com famosos e construídos por IA. Milhares e milhares de pessoas compraram o produto. Por isso, o melhor jeito para evitar a fake medicina é denunciar e punir, precisamos acabar com a impunidade em nosso país.